| Ao Vivo| 15º Aniversário ZDB
Jul 8th, 2009 | Por Nuno Afonso
No passado Sábado a ZDB instalou-se por algumas horas no Jardim do Museu de História Natural. A razão? Não poderia ser melhor: o décimo quinto aniversário de uma intensa oferta artística no circuito lisboeta. Desse modo, e aproveitando as tardes solarengas que se têm sentido, optou-se por uma celebração mais em contacto com a natureza que serviu de cenário para a música que se escutou. Dos 5 aos 50, foi interessante observar a variedade de pessoas que por ali passaram naquela tarde. Inicialmente previa-se a actuação de Guiné All Stars, Konono nº 1, Pocahaunted e Sun Araw mas infelizmente, por motivos alheios à organização, apenas os dois primeiros nomes actuaram no jardim, sendo que os restantes se apresentaram mais tarde na galeria do Bairro Alto.
Guiné All Stars
Pouco passava das 19h00 quando se escutaram os primeiros acordes do colectivo Guiné All Stars, primeiro dos quatro nomes agendados para a noite. Os sons tradicionais da região que dá nome à banda assentaram na perfeição com o finalizar do dia, criando um ambiente algo tropical e bastante aprazível enquanto ainda muitos chegavam ao local. Nutridos de quentes melodias e ritmos que irremediavelmente puxam à dança e à descontracção, tudo ingredientes que já eram esperados e que a Guiné All Stars provou dominar, ou não fosse esta reunir alguns músicos já com o seu valor comprovado como Maio Coupé ou Kimi Djabaté. Um começo certeiro, no sentido em que criou uma atmosfera calorosa a quem chegava e preparava os primeiros passos de dança a quem já se encontrava entre o público.
Konono nº 1
Se dúvidas houvessem, ficou a prova: os Konono nº1 são uma força da natureza, um exemplo de como a vitalidade e criatividade da música africana pode ser universal. Mais que uma banda, são uma máquina imparável de celebração cósmica cujo ritmos desenfreados se fundem num psicadelismo deliciosamente inebriante. A liberdade que se sente na sua música é fortíssima e como se não bastasse também a forma como os Konono nº 1 envolvem o seu público nesse “ritual” é única. Cada membro da banda é uma personagem de grande presença e estilo e ao olhar para a face de cada um deles percebemos que se estão a divertir tanto como nós. Obviamente, essa sensação de bem-estar transmite-se a cada direcção e atiça – ainda mais – o clima de festa que já a própria música proporciona. As percussões, as vozes e os característicos likembes amplificados (ao bom modo lo-fi) criaram a uma cascata de ritmos e cores gerando uma dança contagiante que chegou até a alguns membros de Pocahaunted que por ali se encontravam. É óptimo escutá-los em disco mas é verdadeiramente fascinante ter a experiência de os ver ao vivo.
Sun Araw
Já no interior do edifício da ZDB, na área de concertos apelidada de Aquário, dava-se início à segunda ronda de concertos, desta vez mais dados a experimentações evasivas ainda que o espírito de África se fizesse sentir mais obliquamente. Cameron Stallones, também conhecido por Sun Araw foi o primeiro a apresentar-se perante uma sala bastante composta. Estranhamente ou nem tanto, o calor que se fazia na sala até harmonizava com o dub-a-meio-caminho-tribal de Sun Araw que embora não tenha acrescentado ao vivo nada de novo, face ao que já se conhecia pelos seus discos. O ambiente tropical, avariado e meio nebuloso, criado por Cameron causou alguma intensidade e interesse embora a dada altura tenha dado entrada num labirinto de difícil saída . Um concerto algo ritualista e evocativo que inevitavelmente corre sempre o risco de se deixar levar para o campo da infertilidade criativa. Ainda assim, houve bons momentos, com menos exploração ou explosão mas com mais contenção e implosão.
Pocahaunted
Se Sun Araw não surpreendeu, o mesmo não se pode dizer dos Pocahaunted. Já sem Bethany Cosentino (uma das fundadoras que entretanto saiu para se dedicar ao novo projecto Best Coasts) a sonoridade actual da banda em pouco ou nada se assemelha ao universo que tem vindo – até agora – a construir. As longas, atmosféricas e por vezes misteriosas composições que criaram em fabulosos discos como Mirror Mics, Island Diamonds ou o até mesmo o mais recente Passages, pertencem ao passado. Isto a julgar pelo concerto que deram. Amanda Brown, acompanhada por membros de Magic Lantern, BlackBlack e Sun Araw mostrou uma possível nova fase Pocahaunted. Música de base mais directa e relativamente mais próxima do formato habitual de canção. A característica mais notória nesta actuação foi o incrível groove que parece mover a banda. Bem alto e sem hesitações, estes renovados Pocahaunted atiram-se à improvisação envolvendo elementos do krautrock, dub, jazz e a linguagem rítmica de África (uma vez mais). A certa altura a lembrar as experiências dos Gang Gang Dance dos primeiros discos, ficou claro que a orientação da banda mudou. A intensidade e a criação de atmosferas deram lugar a uma abordagem mais estridente q.b e eclética, no sentido de incorporação de outros sons. Ao vivo, a fórmula resulta e os resultados poderão ser mais “físicos” todavia, para quem já tinha vindo a acompanhar o trabalho mais antigo da banda, esta é uma mudança a fundo. O benefício da dúvida resiste e esperamos por novas coordenadas.
Nuno Afonso
[Fotos para breve]




