| AO VIVO | Arrábida World Music Festival @ Setúbal
Jul 6th, 2009 | Por Nuno AfonsoQuem diria que o melhor festival de Verão nacional deste ano iria ser em Setúbal? Eu sei que sou suspeito para dizer isto, porque sou setubalense e tal, mas não tenho dúvidas nenhumas em o afirmar. Surge em ano de eleições (o que deve ser apenas uma grande coincidência) e, apesar de alguma timidez, acaba por ser o festival com o cartaz mais equilibrado e bem escolhido, longe da esquizofrenia do Sudoeste, da tristeza de Paredes de Coura ou do muito lixo que há no Alive (temos que ter em conta a proporção do tamanho do cartaz e a dimensão do festival, claro).
Uma produção sem muito a apontar (apenas as luzes de palco demasiado baixas, que encadeavam mais do que alumiavam), um ambiente medieval bastante jeitoso (alguém visitou as catacumbas?) e uma localização brutal (o forte de São Filipe, com uma vista sobre a serra e a cidade que arrasam com qualquer coisa), fazem do AWM um festival a manter debaixo de olho, numa altura que o FMM de Sines se tornou quase insuportável com tanta e tanta gente.
Sendo assim e depois de tantos elogios (não se esqueçam da minha comissão, se faz favor), eis um pequeno considerando sobre o que se passou, musicalmente, no AWM.
Tcheka – era o elo mais fraco do cartaz mas, ao mesmo tempo, o mais certo para abrir a primeira de duas noites, com a sua musiquinha cabo-verdiana de praia, um lalalás para alguns refrões em modo singalong, uma voz de veludo (é só a mim que me lembra Sam Cooke?) para encantar os corações femininos e, de vez em quando, algum dedilhado mais virtuoso na guitarra para espevitar o público mais facilmente impressionável. A extensão agradável de um belo dia de praia e de uma caracolada com minis logo a seguir.
Tinariwen – são uma daquelas bandas que, volta e meia, estão em Portugal, mas que nunca é demais vê-los. Com o seu rock do deserto, de guitarras ondulantes e hipnóticas como o vento do deserto, o grupo de tuaregues do Sahara teceu mantras bluesly para danças do ventre e headbangings ao mesmo tempo. Os Tinariwen são uma espécie de Masters Musicians of Jajouka do rock, que por acaso até tocavam ao mesmo tempo no nosso país, para ser mais preciso, no São Jorge, em Lisboa.
The Legendary Tigerman – poucos sabem que o primeiro concerto de Paulo Furtado enquanto o seu alter-ego one-man band, foi em Setúbal. Por isso, talvez para assinalar essa memória, The Legendary Tigerman deu um concerto rock como já não dava há algum tempo. Abrindo logo com o seu mid-fi and fucked up blues de Naked blues (a descrição é do próprio), Paulo Furtado deu a entender que lhe interessava mais o blues-rock puro e urgente, do que as composições mais maricas que os seus últimos discos têm revelado. Até as músicas novas que apresentou foram prometedoras, tendo em conta o single nada auspicioso de Femina. Assim, houve Big black boat, Bad luck r&b machine e o final apoteótico com She said, no encore, como nos velhos tempos. Só faltou um público ligeiramente mais expansivo.
Mazgani – o luso-iraniano Sharyah Mazgani acaba de lançar um novo disco (um daqueles eps gratuitos da Optimus) e veio apresentá-lo em casa, rodeado de amigos e conhecidos. E olá, supresa inesperada: Mazgani transformou-se em bluesman. E cheio de atitude, anca gingona e pose desafiante. Parece que comeu algo pecaminoso, que o deixou inquieto. Agora, já não são tantas as canções à Leonard Cohen, mas uma existência mais atormentada à Nick Cave (circa Kick against the pricks) ou Johnny Cash, que se reflectiu em músicas mais negras. Não houve cá espaços para pop feliz e os lalalas de Unageing games, por exemplo, e Bring you love parece que só apareceu porque Mazgani ainda não se pode dar ao luxo de contornar o seu maior êxito em concerto. Com uma banda descarnada ao mínimo – bateria limitada a tarola, timbalão de chão e pratos, contrabaixo e guitarra eléctrica –, Mazgani mostrou músicas novas em molde country, canções de cantautor movidas a whisky e poesia, blues atormentados pela vida e cantigas de cabaret de má fama, em que o seu vozeirão foi sempre tapando os buracos mais perigosos.
Sun Ra Arkestra – era o nome maior do cartaz do AWM: a ensemble de Sun Ra, nome mítico do jazz experimental, vinha a Setúbal muito anos depois da sua última digressão. Com 21 músicos em palco e roupas folclóricas e coloridas, qual Merlins de lantejoulas, a Sun Ra Arkestra deu um espectáculo de virtuosidade musical, que pecou por alguma mistura a mais de géneros. Começaram pelo jazz psicadélico mais cósmico e teatral, trocaram logo a seguir a trip pela acidez da fusão e demoraram-se pelo jazz experimental, em arranjos musicais de longos minutos, como uma big band alucinada a tocarem de trás para a frente. Apesar de ser um concerto para mentes abertas, o facto de quererem tocar um pouco em todas as fases do legado de Sun Ra, acabou por fazer do concerto um pouco de jukebox, que era claramente desnecessário.
Heavy Trash – e para encerrar dois dias em beleza, Jon Spencer (ele mesmo, o frontman dos Blues Explosion) e Matt Verta-Ray (o guitarrista exemplar dos saudosos Speedball Baby) voltaram a Portugal com os Heavy Trash. Aqui, Jon Spencer tem liberdade para dar largas ao seu fascínio por Elvis Presley, com os seus longos discursos à pregador gospel e os gritos e gemidos que emprenharam meio castelo. Com uma espécie de nu-rockabilly (fui eu que inventei este género agora mesmo), os Heavy Trash alimentam-se com os yeahs do público, que páram para ouvir a meio de todas as músicas, e quanto maior for a aclamação da plateia maior será o espectáculo oferecido de seguida. Depois de quase duas horas de concerto e dois encores, Jon Spencer ainda teve forças para descer do palco, (tentar) dispensar os seguranças – que teimam em manter um perímetro de segurança nos artistas, mesmo quando estes vão para o meio do público e lhes dizem expressamente que não querem que eles o façam (que saudades de quando os seguranças não eram seres prestáveis e que só lá estavam para encher de porrada quem tivesse o azar de cair para lá das baias de segurança, depois de um crowd surfing mais arrojado ), sentar-se no meio do público, obrigando as pessoas a sentarem-se à sua volta, para transmitir uma mensagem de amor. No fim, rebentou o moshpit, barril de pólvora que esteve sempre para explodir e que parecia ir chegar ao fim inteiro.
DJ Café del Mar – segundo a organização, era o cabeça-de-cartaz mais apetecível do festival e quem estava a despertar mais curiosidade junto do público. Mas a organização é a mesma que disse que queria que o AWM fosse um festival elitista, por isso…
Eu só tenho uma coisa a perguntar: quem são os djs Café del Mar? Sim, porque entretanto descobri que são mais que um. Eu tinha pena se me tivesse de chamar Café e se tivesse que passar house datado de há dez anos atrás. Se calhar já começou o revival dos anos 90 e eu não dei conta.
Pedro Soares




