| Ao Vivo | Bardo Pond + Marcia Bassett e Margarida Garcia @ ZDB, Lisboa
Out 31st, 2011 | Por Nuno AfonsoMomento-celebração, não só dos dezassete anos de vida da ZDB, mas também da estreia dos norte-americanos Bardo Pond, há muito imaginada por toda uma geração embrenhada nos confins do rock mais marginal. Uma faustosa travessia (in)temporal.
Por todo o teor vulcânico esperado lá mais para o pico da ocasião, a escolha do duo Marcia Bassett e Margarida Garcia, para a abertura da noite, revelou-se notável. Feliz encontro de duas excelsas improvisadoras, ambas com provas mais que dadas em incursões tão variadas quanto marcantes. Há desde logo a ressaltar a natureza confluente da sua colaboração, espontânea e genuína como realmente poucas. Um daqueles casos de perfeita sintonia no processo criativo e que deixa no ouvinte a sensação de estar perante uma experiência singular. Um poço de som intenso, sustentado pelo contrabaixo eléctrico de Garcia e pela guitarra de Bassett, em direcção a um cenário aparentemente infinito e abstracto.
Da ondulação do contrabaixo, um hipnotismo permanente; inicialmente, como uma possível base e posteriormente a funcionar como definição formal de um corpo anímico. A preparação e exploração do instrumento por parte de Bassett permitiu uma descolagem estelar de magnificência, a lembrar – com o devido distanciamento – alguns dos melhores momentos dos Double Leopards, de que fez parte. Em todo o caso, existe aqui uma matéria própria merecedora de toda a atenção possível e cujo trabalho regular poderá descortinar novas coordenadas tão ou mais brilhantes como a apresentada. Soberbo.
Numa altura, já ida mas sempre carinhosamente recordada, em que os Mogwai ainda se perdiam em temas de doze minutos, os Arab Strap eram a banda sonora de um Domingo letárgico e os Flying Saucer Attack um dos frutos mais ácidos da época, os Bardo Pond eram uma presença obrigatória em toda esta lógica. Súmula inconsciente de muito bom rock dos anos 70, da herança inegável da escola Sonic Youth e de delírios/revelações de substâncias psicotrópicas, a banda de Filadélfia voltou a colocar a flauta como instrumento cool. Deverão ter sido imensas as cassetes e cd-r’s por esse mundo fora trocados entre amigos num intervalo das aulas. Hoje é uma imagem cliché, alimentada por um discurso saudosista, mas na noite de Sábado foi um reviver de tudo isso. Isso e o colmatar de um das ausências mais graves na história de concertos nacionais. 2011 já merecia o seu quê de especial só por causa disso.
Ainda que o último disco seja o centro da actual digressão, foi com o clássico Limerick que se deu o arranque. Um ponto de partida certeiro, recuperando a abertura do magistral Amanita, de 1996. A força magnética dos Bardo Pond (a tal que justificou tanto entusiasmo nestes dias) revista imediatamente nos primeiros minutos, em possível antevisão do que se aproximava. Seguindo-se um par de temas mais planantes, Isobel Sollenberger fez-se logo destacar por uma presença valiosa, centro das atenções sem o querer ser e, acima de tudo, voz-efeito doce e amargo em cada tema. Senhora de uma simplicidade inegável, é fácil imaginar a empatia entretanto gerada com o público.
Um concerto em que, para além das várias linhagens sonoras possíveis, se conclui tratar-se essencialmente de (bom) rock. Essa sensação foi-se tornando transversal a cada faixa interpretada ao longo da sua actuação e até mesmo em instantes mais próximos da cor shoegaze como Tommy Gun Angel – outra canção que não poderia faltar. Por outro lado, o improviso sempre teve uma certa dose de importância no modus operandi da banda que, a dada altura, se fez acompanhar do duo feminino que na hora anterior tinha pisado aquele palco. Meeting improvável, certamente gratificante para muitos, que ali assistiram a um mergulho cósmico que tão depressa não será esquecido.
Já em modo encore, ecoou Tantric Porno e, após novo regresso, Sollenberger terminou oficialmente a passagem dos Bardo Pond por Lisboa com um acapella verdadeiramente ternurento. Uma forma airosa e surpreendente de dizer adeus e, quem sabe, até breve. Valeu a espera.
Texto: Nuno Afonso
Fotos: João Pedro Almeida









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