| Ao vivo | Barreiro Rocks

Nov 17th, 2008 | Por Nuno Afonso

Caríssimos, se dúvidas existam, o Barreiro Rocks está aí para provar que esta é definitivamente a capital do rock por cá. Mais que um simples festival, é uma celebração em que se respira e se transpira blues, punk e soul por todos os poros. Este ano o cartaz poderia parecer à priori menos apelativo quando comparado com a edição anterior (e aqui surge a sempre difícil questão dos cortes orçamentais) contudo, não se perdeu em festa nem em concertos memoráveis. Todos fomos iluminados pela presença de Andre Williams; vibrámos desmesuradamente com os nossos Los Santeros, The Act Ups e Les Triple; e ainda viajámos com os Howlin Rain. Mas houve mais…

 

Sexta-Feira 14 ||

Murdering Tripping Blues

Ainda com a sala meio vazia, os Murdering Tripping Blues (MTB) estiveram no arranque do Barreiro Rocks e ao seu modo demonstraram porque são um dos nomes mais badalados nesta nova vaga de rock nacional. Um power-trio que consegue facilmente chegar ao público através de temas fortes e bem conseguidos ainda que infelizmente o orgão não ganhe o destaque merecido e a certo ponto, chegue quase a ser mero acessório. No entanto, notámos uma certa evolução desde a última actuação a que assistimos e a banda parece mais disposta a arriscar e a inovar. Neste sentido, Mallory Left Eye (teclados e voz) ainda interpretou um tema com a ajuda inesperada de um telefone, algo que resultou visualmente bem embora sonoramente houvesse uns pormenores a acertar. Ainda assim, foi uma boa pista para o futuro desta jovem banda que recentemente lançou o Knocking at the Backdoor Music. Sem dúvida, um nome a seguir de perto.

Juanita y Los Feos

É já habitual a presença de bandas hispânicas neste festival e este ano a sua representação esteve a cargo de Juanita y Los Feos que ofereceram um dos concertos mais festivos destes dois dias de evento. Para além de uma presença descomprometida e efusiva em palco, a banda mostrou que conhece bem a cartilha punk rock sem nunca esquecer uma boa vibração pop que se fazia notar em cada tema. Um certo sentimento retro acompanhou a sua actuação e à cabeça vinham nomes como The Sonics ou Devo. Óptimas e visíveis referências que aqui se sentiam mas sempre com espaço para a criação própria.  

Dançou-se bem ao som de Juanita y Los Feos e foi uma bela passagem para a banda que se seguia.

The Act Ups

Muitos eram os que esperavam para ver a banda da casa mas ninguém esperava que eles aparecessem surrealmente mascarados. E logo aí ficámos com a sensação que se aproximava um concerto especial, daqueles que perduram.  Não foi preciso muito tempo para que essa sensação se confirmasse. Os The Act Ups deram um belíssimo concerto em que apresentaram novos temas do mais recente  Play the old psychedelic sounds of today. E de referir que cada canção soava melhor que a anterior, levando a um crescendo fabuloso de quase-hinos instantâneos e que no fundo transmite bem o nível a que actualmente a banda de Nick Nicotine chegou. O primeiro grande concerto da noite.

 

Os Pontos Negros

Após a festa proporcionada pelos The Act Ups, o nível da fasquia era elevado e a fechar as actividades em palco nesta primeira noite de Barreiro Rocks, estiveram um dos casos de maior popularidade dos últimos tempos, no que respeita a música portuguesa. Os Pontos Negros são definitivamente a nova coqueluxe pop/rock mas a verdade é que nunca chegaram a convencer os presentes. Os seus temas são tecnicamente bons e a sua presença é natural e espontânea, o que só fica bem. Contudo, falha algo. E bastava olhar à volta para perceber que o público não se encontrava especialmente atento à sua música e até foram alguns os que se dispersaram pela sala aquando a sua actuação. O que falhou? Talvez o facto de na altura o apetite ser maior para um rock sujo e directo e não tanto para o rock de canções orelhudas d´Os Pontos Negros. Poderá ter sido uma questão de mau timming, talvez. Certo mesmo é que nesta altura já havia quem pensasse na dupla que se seguia para a tradicional e sempre esperada After-Party.

Les Triple

As After-Parties do Barreiro Rocks são conhecidas e tidas como o melhor da noite. É o momento em que se cessam os concertos no palco e monta-se arraial no chão, fomentando uma proximidade única com o público. Ora os Les Triple foram uma escolha certeira para este contexto e deram provavelmente um dos melhores concertos do festival. Já se sabia que esta banda prometia incendiar e a expectativa e a curiosidade deram lugar à surpresa e à redenção.  A dupla dos irmãos Nuno Silva (voz e guitarra) e Rui Silva (bateria) causaram o puro delírio e certamente ganharam muitos admiradores nessa noite. É de sublinhar a dinâmica e a abordagem crua com os Les Triple se atiram ao blues rock sob um fundo garage punk, em perfeito equilíbrio e digna de uma energia vibrante e contagiante. 

Acabava assim da melhor forma o primeiro take do festival e a festa seguia com o norte-americano mais barreirense de sempre: DJ Shimmy.

Sábado 15 ||

Fast Eddie & The Riverside Monkeys

Segundo e último take do Barreiro Rocks e com presenças internacionais, uma delas muito especial. Mas antes, mais um exemplo da prata da casa: Fast Eddie & The Riverside Monkeys.

Um misto explosivo de blues cavernoso e guitarradas 70´s que recentemente ganhou forma física através do disco Baptize me in wine. Ao vivo a banda demonstrou uma força incrível  e há-que dizer que a voz de Eddie complementa na perfeição o som da banda. No folheto de apresentação do festival falavam-se de referências que iam de Tom Waits a Birthday Party, passando por Gun Club e de facto, estas são algumas coordenadas importantes na sua música. Para o final, convidam-se os amigos espanhóis Los Chicos a subirem ao palco e assim participarem numa power jam que finalizou a passagem de Fast Eddie & The Riverside Monkeys pelo festival.

Howlin Rain

Estava prevista a presença dos franceses Sonic Chicken 4 mas dias antes a banda cancelou a actuação, o que forçou a mudança de planos no que diz respeito ao lineup do cartaz. Deste modo, os Howlin Rain actuaram uma hora antes do planeado sendo que os Goldstar preencheram o lugar vazio deixado pelos Sonic Chicken 4.

E coube aos Howlin Rain transportar o público para uma viagem de psicadelismo bluesy à América profunda. Um oposto à maioria das bandas que por aqui passaram no sentido que a banda de Ethan Miller (também mentor dos Comets On Fire) explora a música de uma forma mais progressiva e não tão imediata. E poderia-se até julgar que deviado a estas característica, este concerto não resultasse tão bem. Felizmente, tal não aconteceu e até fez sentido os Howlin Rain terem actuado a seguir a Fest Eddie e antes de Goldenstars pois sonoramente foi uma passagem feliz, sem ter quebrado o ritmo. Música evasiva e livre, dirigida mais para a mente do que para o corpo mas que ainda assim teve momentos de grande entrega, tamanha a entrega que a dada altura o teclista atira o seu instrumento ao chão. Só para que não nos esqueçamos que aqui se celebra o rock, essa “força incontrolável e poderosa” como descreve Iggy Pop num tema dos escoceses Mogwai. Well done.

Goldstars

Conhecidos como sendo a banda suporte do senhor Andre Williams, os Goldstars apresentaram-se vestidos a rigor pois isto de acompanhar uma figura mítica não é para todos. E assim, de aspecto dandy, deram um bom espectáculo de rock n´roll nutrido de muito groove e muito estilo. No geral, poucos seriam aqueles que conheciam bem o seu trabalho mas a forma bem disposta com que a banda se entregou ao vivo fez com que fossem acolhidos sem qualquer tipo de reservas. E nesta altura já era notória a habitual enchente no último dia do Barreiro Rocks.

Andre Williams

E de Chicago chegou uma das poucas lendas vivas do rock n´roll e r&b e com aquela aura que só essas figuras míticas têm. Andre Williams entrou em palco e a ovação foi imediata. Afinal, as atenções deste ano recaíam, inevitavelmente, nele. De fato e chapéu azul e uma subtileza grandiosa, Williams interpretou um punhado de canções que abrilhantaram a noite de encerramento do festival. Grandes canções que iam do velhinho rock dos anos 50 às baladas mais irresistíveis. E é impossível não sentir uma certa emoção ao escutar estes temas intemporais e pensarmos porque raio já não se faz música assim. No entanto, e apesar de uma entrega visível, notou-se que a sua idade avançada já pesa e quase no final do concerto o senhor Williams despede-se do público, deixando os Goldstars continuar a festa até ao regresso em palco, em jeito de encore. E assim, acabava o concerto da forma como antes começara: em ovação, pois claro.

Los Santeros

Última noite de festival, os concertos no palco já tinham acabado mas chegava a esperada altura do After Party, e desta feita com outra presença de luxo. Os Los Santeros, trio renegado oriundo de Chihuahua, México (ou não) composto por Nickie Santero (dos The Act Ups), Chicken “Birdie” Joey e ainda Fast “Eddie” Nelson (sim, ele actuou duas vezes na mesma noite).

Numa palavra, o concerto de Los Santeros foi desbunda. Pura e crua, surf-rock condimentado com punk picante e cerveja fresca. Falou-se português, castelhano, espanholês, inglês, tudo isto com uma dose generosa de improviso que incluiu versões dos Stooges e The Cramps e no final um moshpit colectivo com copos pelo ar, cabelos na boca e escorregadelas no chão. Sorrisos? Imensos. O espírito de celebração no seu esplendor e a certeza de que todos os anos, há quem vá a Fátima e há quem vá ao Barreiro.

Entre concertos, reencontros de amigos e ocasiões para novos amigos, o ambiente que se vive no Barreiro Rocks é único e sente-se que tudo isto é feito com muita  paixão não à camisola, mas sim às velhas e rotas All Stars e ao espírito rock n´roll. E nunca esquecendo o grande crooner Vieira, o maior performer de todos os tempos, presença exclusiva deste festival.

Por agora é tudo, durante dois dias sentimos que não poderia haver melhor espaço para estar.

Para o ano há mais.

 www.barreirorocks.org

Texto: Nuno Afonso

Fotos: Nelson Gonçalves

One comment
Comentar »

  1. Nelson Gonçalves? Quem é esse Nelson Gonçalves? :) tens de pôr o nome de código, se não, ninguém conhece. ;)

Comentar