| Ao Vivo | Festival Bons Sons

Ago 30th, 2010 | Por Nuno Afonso

No meio de tanta oferta de festivais de verão que há actualmente em Portugal, há um que nos vai buscar a casa e nos obriga a ir: o Bons Sons é um festival de música portuguesa de raiz mais tradicional, que ocorre a todos os dois anos numa aldeia perto de Tomar, com nome de lugarejo perdido de um western de John Ford – Cem Soldos – e onde os autóctones se mobilizam para receberem os visitantes, numa autêntica organização comunitária. O Mescla Sonora não resistiu ao apelo e foi ver o que se passou pelos três palcos da edição deste ano do Bons Sons, que encheu as ruas de Cem Soldos até ao limite do tolerável.

Princezito
O concerto de Princezito foi o ideal para abrir o primeiro de três dias de festival: com os ritmos quentes e sensuais de África, o cabo-verdiano foi, pé ante pé, chamando os mais distraídos para junto do palco e alertando quem andava nas ruas paralelas a ver as barraquinhas da feira de marroquinaria de que o concerto já havia começado. Depois, quando o público já estava reunido, este herdeiro do batuku e da tradição vocal do finaçon trouxe “Lua”, tema que todos reconhecem da voz de Mayra Andrade. A partir daqui, final em festa – ainda com uma versão de “Sodade”, popularizada por Cesária Évora e por Bonga –, em que faltou apenas um bocadinho assim para Princezito encher o palco. Mesmo assim, as suas boas vibrações convenceram o público a traze-lo de volta para o encore.

Dead Combo
Os Dead Combo, duo instrumental a guitarra e contrabaixo de Tó Trips e Pedro Gonçalves, são uma das grandes bandas da actual música portuguesa. Toda a gente os conhece e sabe o que esperar, por isso não vale a pena estar a perder tempo com as inevitáveis descrições de westerns em Alfama e lavadeiras no faroeste americano. Vale, isso sim, realçar o quão segura está cada vez mais a banda, especialmente Tó Trips, que como se pode dedicar agora mais aos territórios intimistas com o seu projecto a solo, está mais expansivo na forma omo aborda a guitarra. E isso reflecte-se na música. Portanto, os Dead Combo estão cada vez mais sónicos e mais rock’n’roll: a guitarra eléctrica de Trips está tão urgente e próxima da força primitiva e hormonal do rock como estava Link Wray na primeira vez que tocou “Rumble” ou o Dick Dale quando começou a brincar ao surf-rock. Tempo ainda para as versões já habituais nos seus alinhamentos ao vivo de “Like a Drug”, dos Queen of the Stone Age, e “Temptation”, de Tom Waits. Mesmo assim, esta última continua a soar melhor na simplicidade do “3 Pistas”, do Henrique Amaro.

Diabo a Sete
Vêm de Coimbra, mas a gaita-de-foles (e demais pífaros), o acordeão e a percussão começam por lembrar a tradição bretã – desde a fiesta dos Pogues, sempre os Pogues, até ao alt-country dos Mekons. Mas os Diabo a Sete têm também adufes, sanfonas e, claro, um inevitável pendor pela tradição minhota e transmontana, num concerto em tom de festa dançante. Contudo, o concerto entrou um pouco numa viagem circular e, por isso, algo repetitiva.

Melech Mechaya
Em festival de world music (ou similar) que se preze, não há fanfarra que não tenha sucesso imediato. Os ritmos ciganos e da música klezmer que os Melech Mechaya emulam com uma projecção punk (olá Gogol Bordello, olá Emir Kusturica, claro) criam esta galvanização que trespassa para o público, com a banda a ter o trunfo de conseguir evitar os riscos de se tornarem repetitivos, recorrendo a pequenos e simples truques que fazem toda a diferença, seja numa versão da sempre apoteótica “Misirlou”, seja na recriação da malha de Michael Jackson, “Smooth Criminal”.

Lula Pena
O novo álbum de Lula Pena (durante muito tempo um dos segredos mais bem guardados da música nacional) chama-se “Troubadour” e não é por acaso. Lula Pena é uma trovadora que, ao contrário de outros viajantes, exprime o que absorve das suas viagens pela música e não pela literatura. Portanto, cada um dos seus temas é uma viagem (normalmente até são várias), que têm o fado como porto de partida (também não é por acaso que o seu primeiro disco se chama “Phados”, depois de ter ido viver para a Bélgica e percebido a verdadeira essência da palavra saudade) e a música popular brasileira e o tropicalismo como porto de chegada. Pelo caminho, a chanson francesa, o cancioneiro espanhol e também a música ligeira anglo-saxónica vai servindo de porto de abrigo, numa interpretação entre as cordas da sua viola acústica e a sua voz profunda, mas também onde o silêncio é elemento fundamental na sua música.

Norberto Lobo
Também no cenário respeitoso da igreja de Cem Soldos (onde minutos antes tinha estado Lula Pena), Norberto Lobo subiu ao altar para receber a bênção de uma nave a abarrotar de gente em trajes pouco habituais para um espaço daqueles, cuja ovação final reconheceu-o como um mestre na tradição da guitarra. Já tínhamos Carlos Paredes e António Chainho e agora temos Norberto Lobo a pontuar a história da arte de bem tocar guitarra em Portugal. No entanto, Norberto Lobo trouxe uma surpresa ao Bons Sons: uma loop station para encerrar o concerto com uma textura de mantras vocais, talvez influenciado pela sua nova super-banda, os Tigrala. Depois, uma outra surpresa, mas esta algo confrangedora: sem ninguém perceber muito bem até onde aquele momento deveria ser levado a sério, Norberto chamou Manuel Lobo para uma breve incursão por uma melodia ao órgão e ao pífaro, que pareceu uma das minhas aulas de Música no ciclo, quando estávamos 38 tipos sem qualquer formação musical a tentar aprender a tocar o “Yellow Submarine”, para desespero da impotente professora. Felizmente, para o encore, Norberto Lobo trouxe um ukelele para se redimir. E é sabido que um ukelele funciona sempre para desculpar alguém.

B Fachada
Os concertos na igreja de Lula Pena e Norberto Lobo atrasaram-se um pouco e B Fachada não esperou por nós para começar a sua actuação no palco Giacometti. E quando lá chegámos, eis algo que ele “não costuma fazer muitas vezes”: uma versão de “Etelvina”, de Sérgio Godinho. Confesso que, por mais força que faça, custa-me a perceber o fenómeno B Fachada: gosto de alguns temas, tem momentos bastante felizes enquanto letrista e a forma como resgatou a viola braguesa do quase esquecimento para a música popular é fantástica. Mas o seu timbre de voz irrita-me, a sua presença em palco demasiado descontraída (engana-se várias vezes e não se importa com isso) faz com que pareça que não está a levar aquilo a sério e, algumas músicas com bateria e contrabaixo por trás, fazem lembrar mais vezes que o recomendável o… Rui Veloso. No entanto, depois saca da cartola momentos como “Os Discos do Sérgio Godinho”, do novo álbum “Há Festa na Moradia”, ou o impecável “Zé!”, de “Um Fim-de-semana no Pónei Dourado” (que encerrou a actuação), e deixam-me sem saber o que pensar, fazendo desta crónica um texto paradoxal e contraditório. B Fachada é um tipo de extremos, de quem se ama ou odeia. E isso tudo dentro do mesmo concerto.

Diabo na Cruz
Rocklore ou trad-rock, perguntava o folheto informativo do Bons Sons no texto dedicado aos Diabo na Cruz, a super-banda que junta, entre outros, Jorge Cruz, B Fachada e Bernardo Barata. E nós respondemos rocklore sem qualquer hesitação, especialmente depois de os ver ao vivo. Porque os Diabo na Cruz são uma banda rock, começando pela estrutura tradicional – guitarra, bateria e baixo, mais viola acústica e teclas – e terminando nos arranjos das canções. E, ao vivo, são uma banda de estádio, com jogos de luzes, strobs a piscar por todo o lado e um espectáculo assinalável em cima do palco. Os Diabo na Cruz são os U2 do rocklore e têm arcaboiço para aguentar a jogada, com uma música de raiz tradicional em arranjos rock – sempre a guitarra eléctrica como actor principal (Jorge Cruz tem pinta para o lugar de frontman) e a bateria a marcar o ritmo. Como uns Gaiteiros de Lisboa nas anfetaminas – e a comparação não é por acaso, uma vez que houve versão de “Lenga Lenga”, com as teclas a deslizarem por territórios psicadélicos –, o concerto de Diabo na Cruz foi do melhor que passou pelo Bons Sons deste ano, uma locomotiva de rock’n’roll para dançar o vira.

Dazkarieh
A intenção dos Dazkarieh, banda lisboeta com grande rodagem por festivais de world music por esse mundo fora, é das melhores, ao querer proporcionar uma leitura mais moderna da música tradicional portuguesa. É certo que existem instrumentos menos convencionais, chamemos-lhes assim – a sanfona, a gaita-de-foles, o adufe… -, mas o que os Dazkarieh nos oferecem são arranjos muito limpinhos, mais próximas da pop-festival-da-canção do que do rock-tradicional-fusão e com uma componente lírica bastante forte. A sério, no Festival da Canção a representarem Portugal aposto que fariam um brilharete, mas ao vivo num festival de verão é balofo e cansativo.

Terrakota
Houve uma altura em que os Terrakota estavam em todo o lado: íamos a uma queima das fitas e eles estavam lá; íamos a Paredes de Coura ou ao FMM e eles estavam lá; íamos às festas aqui da terreola e eles estavam lá; levantávamo-nos há noite para ir à casa-de-banho e eles estavam lá; dávamos um pontapé numa pedra e eles estavam lá debaixo… Depois o fulgor foi-se apaziguando e a banda foi-se estabelecendo, aprimorando a mestiçagem dos sons da “África colonial” (e não só). Perdeu o imediatismo da experimentação, mas oleou a sua máquina de dançar, que já não é só a da África negra, mas é também a do Caribe ou a da Jamaica. Sabe sempre melhor ao vivo e ao fim de noite do que em disco, mas já no início era assim.

Pedro Soares e Helena Reis

Site Bons Sons

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