| Ao Vivo | Festival Músicas do Mundo de Sines
Ago 2nd, 2010 | Por Nuno Afonso
O Festival Músicas do Mundo (FMM) de Sines continua a ser um festivais dos mais especiais do verão nacional. Mais do que uma autêntica montra de world music, o FMM tem uma boa onda incrível, que se mistura com o sol e a praia da costa vicentina, o constante cheiro a ganza e inúmeras hordas de pacíficos freaks de rastas, djambés e uma aparente aversão pelos chuveiros. Este ano, em tempos de crise financeira, a edição do FMM foi reduzida em dias – aboliu-se a extensão em Porto Covo e passou a haver mais um concerto no Castelo de Sines. Perdeu-se em quantidade, ganhou-se em qualidade. Pessoalmente, prefiro-o assim.
Vitorino e Janita Salomé com o Grupo de Cantadores do Redondo
Voltou a caber à música portuguesa a honra de abrir mais uma edição do FMM, algo que já começa a ser uma tradição. Desta vez a tarefa ficou a cabo dos irmãos Salomé: Vitorino, o mais mediático; Janita, o mais virtuoso; e o outro, o que ficou lá atrás a tocar viola e a fazer segundas vozes. Naturais do Redondo, os irmãos trouxeram o Grupo de Cantadores lá da terra (que ajudaram a criar, sob a alçada de Zeca Afonso) para um espectáculo em estreia absoluta, em que recriaram o cante alentejano com umas roupagens mais modernas, num conjunto de modinhas alentejanas criadas por António Lobo Antunes, clássicos de Zeca Afonso e outras canções tradicionais do cancioneiro popular alentejano. Com a versatilidade vocal de Janita Salomé, o Grupo de Cantadores do Redondo mais empenhado em cantar e menos em beber vinho nas tasquinhas ao lado do palco e o conjunto mais afinado, espera-se um concerto ainda melhor na Festa do Avante.

Cacique’97
São uma das grandes descobertas do underground lisboeta dos últimos tempos: os Cacique’97 cruzam a tradição rítmica africana com o afrobeat nigeriano, numa autêntica big band mestiça, liderada por Milton Gulli, cuja voz algo flat acaba por transformar os temas mais calmos em bocejos mais desinteressantes. O concerto pecou por duas coisas: por ter sido colocado às sete da tarde e por ter sido posto no dia mais calmo do festival. Mas já deu para começar a desenferrujar as ancas, antevendo o que aí vinha. Ah, e no encore, uma versão da Orchestra Baobab.
Nat King Cole en espagnol
Compreendo que o David Murray já faz parte da prata da casa. O saxofonista norte-americano enamorou-se pelo festival e por Sines na primeira vez que lá foi e tem estado presente em quase todas as edições, para tocar ou para dar masterclasses e workshops. Além disso, comprou casa no centro da cidade e tem colaborado com a comunidade local. Claro que o FMM não pode (nem deve) desprezar esta relação com um dos mais importantes músicos jazz contemporâneos. Mas um espectáculo como este perdeu claramente no cenário do castelo de Sines; recriar os êxitos que o crooner Nat King Cole gravou em espanhol pelo free-jazz do saxofone de Murray, uma secção de sopro cubana virtuosa e as cordas da Sinfonieta de Sines pedia uma sala fechada e cadeiras. Assim, foram duas horas que custaram a passar e que, se não fosse a participação especial (mas, infelizmente, curta) de Daniel Melingo (uma personagem esguia e com uma buzina na garganta – e, aparentemente, algum álcool a mais no sangue – a cantar tango como deve ser), teria sido mais extenuante. Além disso, qual a ideia de recriar os êxitos latinos de Nat King Cole em Portugal? Eu sei que o espanhol é um dialecto português parecido com a língua de Camões (Ramos Horta dixit), mas a fase castelhana de Nat King Cole não é coisa que impressione ninguém que conheça o reportório completo do músico americano.
Las Rubias Del Norte
As Rubias Del Norte têm um conceito para a sua música: se não tivesse acontecido a revolução rock, a música latina continuava a dominar as tabelas e as pistas de dança de todo o mundo. E elas, provavelmente, seriam uma das bandas mais importantes da actualidade. Como isso não aconteceu, Emily Hurst e Allyssa Lamb dedicam-se a dar apenas mais visibilidade às rumbas, aos cha-cha-chas, às salsas e a outros ritmos latinos, com arranjos mais jazzy, que piscam o olho à ingenuidade onírica e infantil do primeiro álbum das CocoRosie (mas sem os sons de brinquedos e outras polifonias inesperadas), ao formato pop-festival da canção (olá ABBA) e às sonoridades lounge, que tanto sucesso fazem no nosso país com os Nouvelle Vague e aquelas compilações que transformam os sucessos estafados pela rádio de bandas consolidadas (olá Rolling Stones, olá Guns n’ Roses) em hits de bossa nova para serões à beira-mar a comer crepes e a beber caipirinhas com o dedo mindinho esticado.
Céu
Caetano Veloso, nome máximo da música popular brasileira e do tropicalismo, considerou Céu o futuro da música brasileira. Céu alia um vozeirão quente e sensual à MPB e leva-a a um novo nível de modernidade, atirando-lhe uns pozinhos de electrónica (DJ Marco é o dj de serviço e um scratcher de eleição). Concerto sóbrio e sem grandes golpes de asa.
Wimme
É para isto que servem os festivais de world music. Ou pelo menos, é isto que eu espero de um festival de world music. Ouvir e descobrir novas sonoridades de locais do mundo que, em situações normais, não teríamos possibilidade de escutar. Wimme é a banda que acompanha Wimme Saari, finlandês do povo Sami do norte da Escandinava. O concerto começou pelos ritmos minimais de um blues que Tom Waits não desdenharia, com grande percepção pelos jogos silenciosos e com Wimme Saari a fazer uso de uma voz gutural e de jogos vocais imperceptíveis. Depois, o clarinete baixo de Tapani Rinne foi transformando-se em dronne e as cordas de Matti Wallenius entrando em jogos circulares, aproximando a música dos Wimme cada vez mais de uma percepção sensorial e xamânica, que nós associamos mais à música nórdica, via Sigur Rós. A voz única de Wimme Saari é mais uma forma de tecer estes mantras que grupos como os DOPO deveriam escutar mais vezes, mas a parte alta do concerto foram os três joikes que Wimme interpretou a solo – canções apenas vocais, dedicadas a animais da natureza, num cantar entre as polifonias tibetanas e o blues de tradição vocal de Leadbelly ou Son House.
Yasmin Levy
Yasmin Levy é israelita descendente dos judeus que forma expulsos da Espanha em 1400 e muitos. Por isso, no seu sangue ainda corre o ADN do cancioneiro ibérico que os seus antecedentes cantavam, inclusive em ladino, língua que está em riscos de extinção. Por isso, não admira que o repertório de Yasmin Levy seja uma mistura da passion castelhana com o romantismo dos gloriosos tempos passados em que a península ibérica era o centro do mundo, os ritmos do flamenco e a profundidade sentimental do fado. Aliás, se tivesse nascido em Portugal, Yasmin Levy teria tudo para ser uma grande fadista.
N’dial
N’diale significa “o prazer de estar juntos” e serve para descrever este encontro feliz entre o Jacky Molard Quartet e o Founé Diarra Trio. Ou seja, é o mesmo que explicar que N’diale é um projecto que funde a música tradicional bretã (a fiesta dos Pogues sempre presente, especialmente no violino de Moulard ou no acordeão) e aquilo que se convencionou chamar, anos mais tarde, de alt-country, com os ritmos malianos da cantora Founé Diarra. Resumindo e baralhando: cruzamento explosivo dos ritmos africanos de tradição mandinga com os ritmos das festas bretãs regadas a vinho e força acústica.
The Mekons
E por falar em alt-country, que tal se falarmos daqueles que foram uns dos responsáveis pelo cunho deste termo? Os Mekons que vieram a Sines estão cada vez mais country e cada vez mais longe dos tempos em que, ao lado de gente como os Gang Of Four, andavam a colocar o prefixo pós ao punk. Sentados em semi-círculo e apenas recorrendo ao poder dos instrumentos acústicos e da percussão, criaram o fim de noite perfeito para uma festa que inclui, obrigatoriamente, vinho e muita dança colectiva (mesmo que sirva para que Tom Greenhalgh, em grande forma, parodiar o sapateado do Riverdance).
Grupo Fantasma
Prince considera este Grupo Fantasma como a maior orquestra latina dos Estados Unidos. E se sua iminência assim o diz é porque é. O concerto de Sines foi, portanto, passe a redundância, apenas para os mais cépticos confirmarem isto. O Grupo Fantasma trouxe para o after da avenida da Praia, em Sines, os ritmos latinos que mais devem ao funk. Claro que para quem não é um rei do mambo estas coisas cansam ao fim de algum tempo.
Kimi Djabaté
Se olharmos para o mapa, vemos que a Guiné não fica muito longe do Mali. E se costumamos vir a Sines, já descobrimos que no Mali não existe má música. Kimi Djabaté, guineense estabelecido em Lisboa, relembrou-nos destas duas premissas, com uma actuação diabólica de levantar poeira, lembrando-nos a cultura griot, mas também os ritmos mais quentes da morna cabo-verdiana e da música angolana.
The Rodeo
Esta edição do FMM marcou o ano em que a música tradicional norte-americana veio em força ao festival. E porque não? Afinal, os Estados Unidos são um país do mundo e, como tal, a música que lá se faz é também world music. The Rodeo é uma menina francesa que tem a um lado americano a correr-lhe nas veias e canta folk e country como uma mulher vivida do Texas (olá Loretta Lynn, olá Dolly Parton). E no alinhamento até houve a inevitável versão de Ring of Fire, de Johnny Cash.
Sa Dingding
Sa Dingding é uma das maiores estrelas da música chinesa, mas se não tivesse nascido para lá do sol posto não poria os pés em Sines, de certezinha absoluta. É que a sua música pouco tem da tradição musical chinesa, sendo antes um power-pop espalhafatoso, mais perto dos espectáculos grandiosos da Madonna e da electrónica-esquisita de Björk (nem que seja pela verborreia que não se percebe nada). Mas com voz lírica estridente, claro.

Tinariwen
Os reis do deserto do Sahara são já uma presença regular em Portugal e, por isso, sabemos com o que podemos contar. Blues do deserto (olá Ali Farka Touré), em desenhos circulares, que colocam os Tinariwen a jogar no campeonato rock com uma segurança impressionante, que faz o Benfica de Jorge Jesus repensar a sua táctica. A isto aliam uma presença em palco gigante e uma dinâmica colectiva de quem faz isto há muito tempo, colocando os backing vocals a dançarem na boca do palco de forma irresistível.
Forró in the Dark
E, de repente, a avenida da Praia parecia aqui a minha rua no sábado à tarde: forró em altos berros, brasileiros a gritar e cerveja por todo o lado. Os Forró in The Dark são três brasileiros estabelecidos nos Estados Unidos que deram viabilidade ao forró nordestino, trazendo-o para as pistas de dança e injectando-o de anfetaminas, dub e outras modernices. E, tal como os outros ritmos urbanos que andam a contagiar as pistas de dança (os Buraka Som Sistema, a MIA ou os Bonde do Role), o forró dos Forró in the Dark transforma-se em algo irresistível ao corpo, um verdadeiro inimigo da letargia. Mas não deixa de ser forró.
Galaxy
À segunda música dos Galaxy, a Jamaica telefonou e pediu a sua música de volta. Timorenses a cantar reggae não é nada de especial, mesmo que seja a primeira banda de Timor a tocar na Europa. Depois lá foram pisando outras sonoridades mais modernas, com o hip-hop e guitarradas rock mais altas, sempre com (alegadamente) letras de intervenção e resistência. Aliás, antes de começar o concerto, a banda esteve a discursar contra o colonialismo. Mas a coisa nunca foi além disto.
Lole Montoya
Lole Montoya é um dos principais nomes do novo flamenco. Cantora e “bailaora”, Montoya transforma a tradição sevilhana flamenca em divagações mais jazz, abrindo os horizontes da sua música. No entanto, o mais impressionante da sua música continua a ser o seu vozeirão. Dispensava-se era tanto encore.
Cheick Tidiane Seck feat. Mamani Keita
Já aqui o dissemos: não há maus músicos no Mali. Cheick Tidiane Seck é um desses casos: virtuoso do hammond, Seck lidera uma verdadeira orquestra rock-funk, descendente da escola de Bamako, mas que não tem medo de ir beber à tradição afrobeat de Fela Kuti ou ao funk de James Brown. Para Sines, trouxe o maior baixista que alguma vez vi a solar e a cantora Mamani Keita, que já havia passado por Sines em nome individual, mas que desta vez só veio fazer o mesmo que a mesinha ali do canto da minha sala está a fazer: decorar. Dispensava-se tanta balada e pedia-se mais música para abanar o rabo.
Staff Benda Bilili
Os Staff Benda Bilili são uma banda congolesa formada por deficientes motores vítimas da poliomielite e retirados das ruas de Kinshasha. Ganharam vários prémios, ouvimos dizer, e ao início tememos que tivesse sido apenas por simpatia ou compaixão. Mas depois vemo-los ao vivo e é como ver o Crippled Masters, mas com músicos, em vez de artes-marciais: os Staff Benda Bilili são uma máquina rítmica infernal e, apesar das suas condições físicas, não têm complexos em se atirarem das cadeiras de rodas para o chão e dançarem desenfreadamente. E se eles, mesmo sem pernas, dançam a noite toda, porque é que nós não o havíamos de fazer também?

U-Roy
Chamam-lhe The Originator e a sua carreira justifica: U-Roy ajudou a transformar o reggae num género universal, sendo um dos nomes fundamentais do toasting, no tempo em que o dj era um tipo que rapava por cima dos pratos a rodar nas sound systems, discotecas ambulantes e roufenhas que rebentavam com as ruas da Jamaica. Por isso, esperávamos mais do que um reggaezinho convencional, guitarra ritmo em constante péum-péum péum-péum, mcs retirados a fórceps do r&b e U-Roy quase em modo automático.
Texto: Pedro Soares




