| Ao Vivo | Flower Corsano Duo + Z´EV & David Maranha
Jul 26th, 2010 | Por Nuno AfonsoNoite de reis na ZDB. Dois duos que não só transportam em si toda a experiência e criatividade de cada elemento como também continuam a lançar importantes pistas para o futuro da música. É na palavra liberdade que ambos se encontram, ainda que através de diferentes formas. Estranhamente, ou nem tanto, contemplação é algo que paira por aqui.
Flower Corsano Duo
Da celebração do ruído e da espiritualidade oriental, Chris Corsano e Michael Flower têm criado um universo francamente fascinante. Muito além da confrontação noise ou da entrega do free-jazz, o duo reúne estas e outras linguagens num lugar unicamente seu. De um lado o shaahi baaja (instrumento híbrido, algures entre um banjo eléctrica e uma sítara) de Flower; do outro a bateria vulcânica de Corsano.
A cumplicidade entre os dois é indiscutível. Sem descurar na prestação de Flower – talvez por ser menos imediata – as atenções iniciais inevitavelmente caem em Chris Corsano. A classe do baterista impressiona quem o vê e seguir a sua dinâmica rítmica apresenta-se como um fabuloso exercício, mesmo para quem não tem qualquer tipo de noção e/ou iniciação no instrumento. Por outras palavras, sente-se de forma muito directa o calibre do músico. A Flower reconhece-se a criação de complexas malhas sónicas, numa constante e libertadora fonte de energia. Talvez semelhante aquela que escutamos em disco como Wonderful Rainbow dos Lightning Bolt ou no sempre deslumbrante Black Woman de Sonny Sharrock. E de lembrar que tudo isto sai de um bizarro instrumento de cordas que dificilmente soará como qualquer outro.
Apesar de ampla e tantas vezes desvirtuada, a palavra zen acaba por ser chave de ouro para a música incendiária de Flower Corsano Duo. Uma única e extensa faixa que constituiu a apresentação arrebatadora que já se esperava e naturalmente, se veio a confirmar.
Z´EV & David Maranha
Se Flower Corsano Duo acentuam intensidade à sua música através de uma frenesim energético e magnético, já Z´EV e David Maranha atingem-na através de um abordagem mais negra e cerebral. Algo que até nem é de estranhar dado percurso de Z´EV, um dos pioneiros na música industrial e figura maior na música improvisada internacional.
A partir de um complexo jogo de percussão em cenário pós-maquinal, Z´EV soube construir um momento ritualista negro que ganhou corpo e forma a seu próprio tempo. A partir de um clima de tensão em que o silêncio é peça vital, o caminho traçado assentou numa construção em crescendo que em muito se intensificou pela excelente prestação de Maranha. O membro dos Osso Exótico teceu sabiamente um cuidadoso manto sonoro sobre o ritmo frio e evocativo produzido pelo músico norte-americano. Uma estrutura inteligente que traz surpresa no que diz respeito à criação de paisagens sonoras apocalípticas ou simplesmente cinemáticas. Uma busca energética pela face mais obscura da música e – em certa medida – igualmente próxima de uma atmosfera e filosofia orientais.
Nuno Afonso




