| Ao Vivo | Goran Bregovic @ Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Fev 10th, 2012 | Por Nuno AfonsoEmir Kusturica tem sido o que de melhor aconteceu a Goran Bregovic, mas também o pior. O melhor porque foi com as bandas-sonoras que fez para os filmes do realizador sérvio (“O tempo dos Ciganos” ou “Arizona Dream”) que Bregovic ganhou o definitivo reconhecimento internacional; e o pior porque muito boa gente continua a achar que tudo o que se ouve nos filmes de Kusturica é o próprio que faz. Nada mais errado, até porque comparar a No Smoking Orchestra com a Wedding and Funeral Orchestra é o mesmo que comparar o Benfica com o Benfica de Castelo Branco: ambos se chamam Benfica, ambos jogam à bola, mas o futebol praticado por uma e por outra estão a léguas de distância.
Goran Bregovic veio à Gulbenkian com uma proposta diferente: um espectáculo de teatro – segundo o catálogo, o termo técnico é um recitativo accompagnato, que traduzido por miúdos é um monólogo acompanhado por música -, feito por encomenda para o festival de St. Dennis, intitulado “Margot, memórias de uma raínha infeliz”. O espectáculo, ambientado na guerra da Bósnia do início da década de 90, é uma história de tragédia e desgraça, que mergulha na identidade cultural e religiosa do próprio país e que, consoante o local onde tem sido apresentado, tem convidado uma actriz diferente para o interpretar. Aqui, a opção foi Ana Moreira, escolha mais do que óbvia, ou não fosse ela campeã em histórias de miserabilismo.
De facto, o texto de “Margot, memórias de uma raínha infeliz” – que rima, inevitavelmente, com o filme “Margot”, de Patrice Chéreau, cuja banda-sonora foi também assinada pelo próprio Bregovic -, é a parte menos conseguida do espectáculo. Apesar da ideia – a crítica à guerra, ontem como hoje, e o caldeirão de confluências de religiões (e, consequentemente, cultural) que é a Bósnia -, falta-lhe intensidade, pathos e tragédia que ancorem a atenção do espectador. E, no final, o texto termina com Ana Moreira a querer que Deus entregue o Mundo às mulheres, comparando-o com uma… cozinha(!). E depois sai para nos ir preparar uma sanduíche. Não, esta última parte é mentira.
Para o espectáculo, Bregovic faz-se acompanhar da sua orquestra de casamentos e funerais, mas também de uma secção de cordas, duas vozes femininas búlgaras e um sexteto de vozes masculinas. No centro, o bósnio comanda a orquestra com a sua guitarra eléctrica, instrumento incomum numa orquestra. Mas a música de Goran Bregovic é ela própria um melting pot em que, tal como a Bósnia, convergem uma série de referências e influências, que vão desde as fanfarras dos balcãs e a música klezmer, mas também o reggae, os ritmos latinos ou os cânticos religiosos: folk-punk, muito antes dos Gogol Bordello terem cunhado o termo.
Basta ver o início do espectáculo. Depois de uma melodia bucólica à guitarra eléctrica, acompanhada pelas cordas, uma versão em espanhol de “Balkañeros” (versão de “Ovo je balkan”, o tema que Bregovic compôs para a participação sérvia no último festival da canção), com uma batida tirada de um ritmo urbano periférico qualquer, enquanto a secção de sopros entrava pela sala adentro, atravessando-a até ao palco. Não houvessem cadeiras e a sala da Gulbenkian teria, certamente, dedicado-se a dois passos de dança.
Com uma abordagem ora mais operática, ora mais cinemática, “Margot, memórias de uma raínha infeliz” fez lembrar antes trabalhos como “Goran Bregovic’s Karmen”. A fusão balcânica ficou para o final, para depois do texto de Ana Moreira; aí, a Wedding and Funeral Orchestra deu sinal de si, trazendo a música cigana para a linha da frente. O público respondeu com entusiasmo tal que, no final, Bregovic voltou a palco para um encore. Primeiro para improvisar uma drinking song e depois para rematar com o punk dos balcãs um espectáculo que chegou a ameaçar não deixar propriamente as melhores recordações.

Texto: Pedro Soares
Fotos: FCG/ Márcia Lessa




