| Ao Vivo | Grouper + Norberto Lobo + Tiny Vipers + Inca Ore @ ZDB

Nov 16th, 2009 | Por Nuno Afonso

Inserida na incansável programação do 15º aniversário ZDB, a Prazeres Session acolheu na passada quinta-feira os regressos de Grouper e Norberto Lobo ao espaço e ainda as estreias de Tiny Vipers e Inca Ore. Uma noite em que a música atravessou um lugar entre o bizarro e a beleza sob quatro visões muito próprias. Sala merecidamente cheia para assistir à noite mais bonita do ano.

Inca Ore

Eva Saelens não é de todo uma novata. Tendo colaborado com Jackie-O Motherfucker, Grouper ou Yellow Swans, é através do pseudónimo de Inca Ore que tem explorado um universo vasto, complexo e encantatório. Silver Sea Surfer School foi lançado há poucas semanas pela Not Not Fun compreensivelmente acabou por ter recebido maior atenção nesta sua (curtíssima) apresentação na sala lisboeta. Algures entre a experimentação mais rude e de baixa fidelidade e a folk ritualista, Saelens mais que criar canções, cria ambientes. Usando uma panóplia variada de  field recordings e as suas próprias composições a artista cria um mundo simultaneamente frágil e místico. Em pouco mais de 20, 25 minutos de actuação o público da ZDB é transportado para o epicentro de uma floresta densa norte-americana. É certo que se trata de um imaginário bastante explorado nesta última década de música livre mas ainda assim Inca Ore apresenta um conjunto de ideias que transforma a sua música em algo de realmente mágico. O seu novo disco é um fabuloso exemplo disso mesmo e quem a viu certamente sentiu essa magia. Uma actuação que soube a pouco, muito pouco, mas que serviu na perfeição para o início de noite.

Tiny Vipers

Apenas acompanhada de uma guitarra acústica, Jesy Fortino aka Tiny Vipers aliou simplicidade a inspiração dando azo a um concerto intimista e nú. Público sentado no chão e atento à voz profunda de Fortino, algures entre Nico ou Beth Orton, tratou-se de um momento em que a folk mais tradicional se enlaça à melancolia e à densidade do mundo de Tiny Vipers. Canções que nos fazem despertar os sentidos mas que por vezes apenas pecam por soar demasiadamente esparsas, incompreensivelmente esparsas. É verdade que essa estética minimalista é parte explicativa desse apurar sensorial que a sua música despoleta, contudo por vezes pode tornar-se um caminho perigoso, principalmente numa abordagem tão despida.

Beleza inegável, sedução irresistível mas não terá sido um concerto memorável.

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Tiny Vipers © Vera Marmelo

Norberto Lobo

Que não hajam dúvidas rigorosamente nenhumas de que este é um dos músicos mais essenciais do panorama nacional. Essencial pela sua qualidade técnica, essencial pela sua riqueza musical e essencial por estar a criar uma obra diferente e refrescante. Poder-se-ia falar em John Fahey ou Robbie Basho mas estaríamos a ser simplesmente chatos e injustos pois Lobo é bem mais que uma mera comparação ou uma simples versão nacional desses grandes mestres da guitarra (e do estilo fingerpicking). É óbvio tratar-se de uma linguagem muito próxima mas existe na música de Lobo algo inédito e a que poderíamos chamar de Portugalidade. A sua música respira referências e ambientes que só poderiam ser portugueses. A começar pelos títulos dos seus temas e acabar nos pequenos detalhes (a lembrar Paredes, numa ou outra ocasião). Para além disso um concerto de Norberto Lobo nunca é igual ao anterior. Ele traz sempre um elemento extra, nem que seja uma diferente e subtil roupagem e/ou interpretação dos temas.

Neste concerto o elemento extra foi uma projecção de desenho, uma história de personagem e ideias que coabitam na música do guitarrista. Um suporte interessante que transmitiu de modo mais concreto os sentimentos e sensações de Mudar de Bina e Pata Lenta, os dois discos do músico. Uma belíssima actuação que apenas reforçou o fascínio aos que já o conheciam e por ventura levou tantos outros a deixarem-se levar por um primeiro e marcante contacto. Nunca será demais vê-lo ou escutá-lo. Simplesmente notável.

Grouper

Mergulhar na música de Grouper é uma experiência verdadeiramente compensadora. Exímia criadora de atmosferas intensas e contemplativas, Liz Harris é voz e mente de uma música infinitamente bela, dolorosamente cativante e capaz de nos pôr as sensações à flôr da pele. Há poucas como ela e não se julgue fácil de a entender. Dragging a dead deer up a hill foi provavelmente um dos melhores discos do ano passado e que levou o seu nome  a um público mais vasto. Na ZDB não houve esse formato próximo de canção que se ouve no disco referido, houve antes uma abstracta viagem para se ouvir de olhos cerrados. Debruçada sobre a sua guitarra e pedais e com   um video de um espelho-de-água nocturno atrás de si, a imagem de Grouper parece-nos demasiadamente pequena e “normal” para a dimensão que a sua música consegue chegar e fazer sentir. Pegando na sua própria música pelas pontas, ela faz-nos sentir uma certa suspensão e um hipnotismo surreal que não se consegue – nem se quer -  recusar.

Cada minuto passou delicadamente mais lento que o habitual e naquela altura certamente não poderia existir outro melhor local na cidade para se estar. Obrigado, Liz Harris.

Nuno Afonso

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