| Ao Vivo | James Blackshaw + Nancy Elizabeth @ Teatro Maria Matos, Lisboa

Jun 29th, 2011 | Por Nuno Afonso

No aguardado regresso de James Blackshaw ao país, o jovem músico fez questão de não vir sozinho e trouxe consigo Nancy Elizabeth. Entre composições e improvisações, conversas e confissões, ambos partilharam um palco e uma noite sempre de forma tão genuína como aprazível – pessoal e musicalmente.

Sem uma real distinção de posições que justificasse a tarefa de abertura de palco para o ‘nome sonante’, os dois artistas escutaram-se mutuamente e, em algumas ocasiões, tocaram em simultâneo; ainda que Blackshaw tivesse sido certamente o nome mais forte – e inaugurador – da noite, tratou-se de uma apresentação diferente, além da mera actuação solitária. Tal facto espelhou, de modo inequívoco, a partilha de abordagens – e, naturalmente, de influências e paixões – existente no trabalho de cada um. Se a ele lhe é reconhecida uma mestria impressionante, do ponto de vista técnico, a ela descobre-se uma adaptabilidade  musical inata, apoiada pela espontaneidade da sua pessoa. Percebe-se pois o elo que os une, e justifica-se logo a razão deste encontro.

Será apenas por via do facilitismo que se confinará Blackshaw à, vasta e sempre presente, herança da arte do mantra vindo guitarra; ou, mais directamente, através da continuidade de  lições do passado deixadas por John Fahey, Sandy Bull ou Robbie Basho. Os ecos da música de cada um deles fazem-se escutar com boa dose de evidência mas, numa audição mais atenta, ressaltam os pormenores  de uma especial sensibilidade. A acuidade do minimalismo e a forma como as melodias se desenvolvem, quer pela subtileza, quer pela naturalidade, aproximam-no à concepção musical de alguns compositores contemporâneos suficientemente distantes da esfera folk ou blues – que à priori será o fundo sonoro de Blackshaw. Uma parcela importante, mas de forma alguma um todo.

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Litany Of Echoes mantém-se como uma das mais brilhantes e vivas obras do músico, e foi este o ponto de partida da noite: através do tema Past Has Not Passed, uma peça que ilustra a plenitude da harmonia possível, vinda pelas suas mãos. E é pela mesma semelhança de harmonia que se assiste à presença afável e humilde de um jovem cujo futuro só poderá ser promissor. Um começo a solo que em breve se transformou num convite a Nancy, que ao piano, acompanhou a guitarra de Blackshaw, dando início a uma segunda parte (sem o ser, realmente) do concerto.

Ainda que a prestação vocal de Nancy Elizabeth seja irrepreensível, há no entanto algo que a impede de se distinguir de uma liga, demasiado vasta, de songwritters femininas. A possibilidade sustém-se na ausência de um lugar definido e próprio e apoia-se num registo amplamente habitado, cujo name dropping se assume como um exercício demasiado acessível. Apesar da característica inócua, há a sublinhar uma interessante construção instrumental que, tal como se indica acima, complementa-se ao universo do músico britânico. Alternando entre o piano e a guitarra, Nancy focou-se nos seus dois álbuns Wrough Iron e Battle and Victory, vislumbrando-se igualmente algum material mais recente.

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Já no fim, e em modo encore, a dupla volta a reunir-se, lado a lado, para a interpretação sobre uma variação de um tema assinado por James Blackshaw. Discretamente, um momento-chave revelador do gosto da repetição e pelo sequente apreço a Steve Reich (e mais especificamente à Different Trains).


Texto: Nuno Afonso

Fotos: José Frade

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