| Ao vivo | John Jorn & Fred Frith @ Jazz em Agosto

Ago 4th, 2008 | Por Nuno Afonso

"Tu és o rei dos judeus?"

Podíamos muito bem pegar nas palavras de Pilatos e empregá-las a John Zorn. Ele poderá responder que não, que não é rei dos judeus coisa nenhuma, mas uma coisa não poderá negar: que é o rei do free jazz, da improvisação e do downtown nova-iorquino.

John Zorn é uma personagem única do mundo da música contemporânea e de entre os muitos rótulos que poderíamos escolher, optamos agora apenas por estes: figura máxima do jazz avant-gard, compositor entusiastas dos mais variados géneros musicais, criador da editora Tradik, prolífero colaborador num sem-número de projectos e com um sem-número de gente importante (que vai de Marc Ribot a Mike Patton, passando pelos Napalm Death) e claro, mentor dos míticos Naked City.

Foi com Fred Frith, guitarrista único na arte da improvisação e seu companheiro há vários anos, que John Zorn se apresentou no auditório natural da Gulbenkian, completamente esgotado, para mais uma noite mágica do Jazz em Agosto em absoluta comunhão com a natureza, com o vento forte que soprava e com o barulho incomodativo dos aviões que teimavam em passar.

Como se esperava, foi uma actuação demasiado free, fortemente dedicada ao improviso, normalmente com base no free-bop ou na música klezmer de Zorn. Obviamente que também houve espaço para as dialécticas muito próprias de cada um dos músicos, que interpretaram um tema sozinhos cada. 

Acompanhado de uma mesa repleta dos mais inesperados objectos que se esperam ver num concerto de jazz, com os quais massacrou regularmente a sua guitarra (ímanes, paus, cordéis, escovas, pincéis, etcetera), Fred Frith começou por complementar os sons minimalistas do saxofone alto de John Zorn, que ia conduzindo, controlando e organizando as hostes com o seu estilo muito particular, semelhante à técnica de condução de Butch Morris, sem que isso pusesse em causa o carácter libertário da música. Só com os buracos tapados é que Frith atacava a sua guitarra, esgravatando na electricidade, usando e abusando dos loops e divertindo-se na bricolage com os objectos em cima da mesa, não tendo por vezes mãos suficientes para acompanhar tudo o que queria fazer ao mesmo tempo.

 
Durante cinco temas extra-longos mais o respectivo encore, o duo criou ambiências e texturas num registo desordenado (caótico?), mas sempre democrático, que começou a ganhar mais consistência e fluídez perto do final. Sob a ovação de pé do público, Zorn e Frith ainda voltariam ao palco para se despedirem uma última vez daquele cenário espectacular e de uma noite para recordar.
 

Texto: Pedro Soares

Fotografia: Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian

Site da Tzadik > http://www.tzadik.com/

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