| AO VIVO | Kluster @ Museu do Oriente
Nov 2nd, 2008 | Por Nuno AfonsoKimmo Pohjonen é um daqueles artistas de quem começamos a desconfiar de ter comprado um apartamento ali para o lado de Alverca. Só assim justifica o passar tanto tempo de vida a dar concertos cá em Portugal. No entanto, ao contrário de bandas como os Guano Apes, o Ben Harper, ou os Gene Loves Jezebel (ai os Gene Loves Jezebel), ao Kimmo Pohjonen não só não nos importamos, como ainda estamos disponíveis para o convidar para ir beber um café, pagar-lhe um copo e ir ver os seus concertos.

Depois de ter estado em Sines, em Julho passado, com os KTU, Kimmo Pohjonen regressou com o seu projecto Kluster (que o junta ao seu aliado de longa data, Samuli Kosminen) para uma actuação no novo Museu do Oriente, que tem o auditório ideal para este tipo de pequeno-médios concertos. Os Kluster são Kimmo Pohjonen no acordeão, rodeado de pedais e demais maquinaria, e Samuli Kosminen no laptop, que, apesar de parecer estar ali o concerto todo sem fazer nada, é uma componente fundamental na programação dos loops, do scratch e da percursão digital.

A actuação iniciou-se com uma série de minutos de ruído que parecia vir directamente das profundezas do inferno. Kimmo Pohjonen tira sons do acordeão que ninguém sabia ser possível e depois de uma luta desenfreada para manter aquele pandemónio controlado, o caos libertou-se numa explosão sonora que absorveu tudo e todos durante hora e meia de lounge-music demoníaca e, ao mesmo tempo, apaziguadora. Muito menos progressivo que KTU, Kluster transforma Kimmo Pohjonen no Quim Barreiros do doom-metal, que faz os Sunn O))) parecerem um coro infantil.

Com uma música feita de camadas, com forte componente cinematográfica (por vezes, lembramo-nos da bricolage do nosso Kubik), a actuação palmilhou ainda os terrenos do noise e do free-jazz, à medida que Kimmo Pohjonen nos dava uma aula de como desconstruir musicalmente um acordeão. Ao seu lado, Samuli Kosminen parecia ser o dínamo que controlava os ímpetos daquele acordeonista dos infernos. É que quando Samuli Kosminen deixava o laptop por instante, Kimmo Pohjonen transformava-se num simples Astor Piazzola do acordeão, inovando o sentido telúrico do instrumento, como o acordeão que todos nós conhecemos.

Com temas esticados durante minutos a fio, os temas pecaram apenas por terem todos a mesma estrutura. No final, já percebíamos como é que ia funcionar a canção, com um crescendo intenso e um pianíssimo a seguir à catarse até ao final abrupto, o que nos fazia interromper as viagens sensoriais antes do tempo. Contudo, para quem costuma ver o Kimmo Pohjonen por cá, este foi um dos seus melhores concertos. E até ao final do ano pouca gente irá conseguir ter uma prestação semelhante cá pelo nosso país.
Texto: Pedro Soares
Fotos: Helena Lopes
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Entrevista que fiz ao Kimmo – http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/search?q=kimmo