| Ao Vivo | Megafone 5: Homenagem a João Aguardela @ CCB

Nov 9th, 2009 | Por Nuno Afonso

Na semana em que se homenageou a memória de João Aguardela, com o lançamento póstumo do quinto volume do seu projecto Megafone, vimos desaparecer António Sérgio. Não sei o que lhe chamar, se curiosidade negra ou coincidência mórbida… Preferia não ter que chamar nada. Afinal, foram dois dos nomes que mais contribuíram para o nosso bem-estar musical nas últimas décadas. O primeiro através do reforço da música tradicional portuguesa e o segundo através da divulgação. Não queria estar a falar muito do António Sérgio neste texto, dedicado ao projecto Megafone e à festa do passado dia 4, mas mas não podia deixar passar a oportunidade de lhe dedicar também umas linhas. Que serão sempre curtas demais, qualquer que seja o caso.

Felizmente, ficam as memórias. E, neste caso, a obra transcende o homem. Foi isso que se pretendeu homenagear no CCB, com o lançamento do Megafone 5: a liberdade e a irreverência (Carlos Guerreiro dixit) da música portuguesa, da qual João Aguardela foi um ímpar divulgador, entusiasta, inovador e performer.

Megafone 5 foi um espectáculo na real assumpção da palavra, que não se limitou às anunciadas actuações dos Gaiteiros de Lisboa, os OqueStrada, os Dead Combo e A Naifa (tudo bandas de créditos firmados que fazem essa ponte entre esta coisa da música tradicional portuguesa e a contemporaniedade), extravasando para fora do conceito “concerto” e do próprio auditório nobre do CCB, graças à intervenção do Artelier, colectivo que apresentou uma instalação entre o teatro de rua, o ready-made sonoro e a performance colectiva, entre procissões cyberpunk a la marchas populares e fatos à Blasted Mechanism minimalistas e com pisca-piscas do chinês.

Musicalmente falando, o espectáculo iniciou-se com os Gaiteiros de Lisboa, o colectivo do alinhamento que mais se aproximava da palavra tradicional. Resgatando a tradição telúrica da música portuguesa, os Gaiteiros fazem uma espécie de fusão com as coordenadas da música popular portuguesa, assente essencialmente na percussão e nos coros vocais, recorrendo muitas vezes à tradição oral das lenga-lengas e afins. Do concerto, do virtuosismo de todos aqueles instrumentos (especialmente os pouco convencionais, sou fã incondicional da sanfona) e da qualidade das canções, só mesmo a reparar como negativo o facto de o som ter estado sempre demasiado baixo para o que gostaríamos.

A festa seguiu-se com os OqueStrada, colectivo de longa data que mistura música com teatro de rua e que não estão, claramente, habituados a palcos como o do CCB. Por isso, a vocalista Miranda libertou-se das limitações convencionais do palco e aventurou-se pela boca de cena, pelas primeiras filas do público e pelo colo dos espectadores do fundo da sala, tentando assim afastar o nervosismo claro. Basicamente, tudo vale numa actuação dos OqueStrada, que melhor explicam o que é aquilo da transversalidade que tanto se fala quando se fala do legado de João Aguardela. Numa fusão delirante entre a música do Portugal profundo das tascas – Tony Miranda, guardião derradeiro do fado da Madragoa, não faltou à chamada, infelizmente com falhas técnicas – com o tango argentino, o flamenco espanhol ou a chanson francesa, houve ainda lugar aos casio tones dos anos 80, Eye of the tiger ao cavaquinho ou Dancing with Myself em versão punklore. Se os Gogol Bordello vissem os OqueStrada iam-se encher de vergonha. Oh Madonna, anda cá ouvir isto.

Os Dead Combo continuam a mostrar que a música instrumental também pode ter sucesso em Portugal. Tó Trips e Pedro Gonçalves orquestram um diálogo a dois, entre guitarra eléctrica e contrabaixo (que também pode ser outra guitarra ou, simplesmente, uma melódica), com o último a marcar o ritmo e o segundo a aventurar-se, desde os terrenos mais sónicos do experimentalismo dos seus tempos avant-garde nos Santa Maria Gasolina no teu Ventre até ao dedilhado mais intimista da sua guitarra 66, projecto a solo para noites calmas. Canção do Avô continua a ser um grande tema, com ou sem apito dos amoladores, e músicas como Quando a Alma Não é Pequena fazem com que os Dead Combo continuem a receber epítetos (justamente, diga-se) como o dos “Morricones” de Alfama.

Para terminar a noite, o regresso de A Naifa aos concertos. E depois de um tema introdutório em que o lugar do baixo de Aguardela se manteve vazio, apenas iluminado de cima por um melancólica candeeiro, Sandra Baptista (acordeonista dos Sitiados e companheira de Aguardela) tomou o palco e a posição de baixista, emulando por momentos a figura desaparecida. E se a actuação de A Naifa já era simbólica, então ficou duplamente simbólica. A partir dali, toda a música soou perfeita, mesmo que não o fosse. Como músicos convidados, Samuel Palitos e Rodrigo Dias (antigos colegas de estrada e palco de Agurdela) vieram dar uma mãozinha num tema cada, e no final a revelação da vocalista Mitó, que explicou que, no último disco da banda, as letras das canções não foram escritas por uma fã que se preferiu manter anónima, como se dizia, mas sim, como descobriram recentemente, pelo próprio Aguardela, que assumiu o nome da sua avó materna como heterónimo. Por isso, a actuação acabou com Filha de Duas Mães, dedicado “à avó e à mãe Aguardela, as duas mulheres da sua vida.”

A entremear os espectáculos, enquanto havia mudanças no palco, houve ainda tempo para se recordar fragmentos dos volumes anteriores do projecto Megafone (com destaque para Aboio – Quando eu era pastor e andava atrás das ovelhas e eu só com a boca, sózinho, só com a boca, fazia assim), trechos de concertos dos contagiantes Sitiados (do Rock Rendez-Vous à festa do Avante) e entrevistas passadas a Aguardela. No final, com todos os intervenientes da noite em cena a receberem a merecida ovação, Sandra Baptista levou os pais de Aguardela ao palco para (mais) um momento comovente de uma noite recheada de emoções fortes.

Pedro Soares

Site Oficial João Aguardela

One comment
Comentar »

  1. O Homem/Musico deixou-nos,ficou a obra e td o vasto bom trabalho.Obrigado Companheiro pelo teu contributo á Musica.

Comentar