| AO VIVO | Murdering Tripping Blues + Born a Lion @ ZdB

Mar 24th, 2008 | Por Nuno Afonso

Na passada sexta-feira, enquanto que, um pouco por toda a parte, se celebrava a morte de Jesus pregado em dois pedaços de pau e a sua Paixão por nós, a ZdB abriu as suas portas para mais uma das suas sessões de rock'n'roll, onde algumas dezenas de pessoas se juntaram para comungar sob o evangelho de Robert Johnson e Elvis Presley. Os pastores de serviço? Os lisboetas Murdering Tripping Blues e os marinhenses Born a Lion, duas das promissoras bandas do rock nacional.

Se Portugal tivesse um circuito e uma cena rock'n'roll consolidada, os Murdering Tripping Blues e os Born a Lion teriam, certamente, muito mais tempo de antena nos media nacional. É que lá fora, ouvem-se milhares de bandas sem um pingo de originalidade e com muito menos qualidade que, mesmo assim, nos entopem diariamente as rádios, os canais de televisão musicais e os alinhamentos dos festivais de Verão, apenas porque têm uma máquina publicitária de grande envergadura a apoiá-los…

Foram os Murdering Tripping Blues que abriram as hostilidades da noite, antecipando o álbum de estreia que debutará brevemente pela Raging Planet, como a banda fez questão de repetir várias vezes para que não nos esquecessemos. Como vêem, resultou… Para quem não os conhece, os Murdering Tripping Blues são um trio que, sonoramente, poderiam ser aquilo que os Cramps soariam se um dia se dedicassem a fazer versões dos Queens Of The Stone Age – punk-stoner de guitarras angulares, sob o efeito hipnótico de um órgão psicadélico. Contudo, quando a guitarra de Henry Leone Johnson parava por momentos, era a bateria tribal de Johnny Dynamite que sobressaía, envolvendo a banda nos territórios lamacentos do swamp-rock de uns Birthday Party.

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O concerto decorreu então sem grandes sobressaltos e com as teclas de Mallory Left Eye a desaparecerem mais vezes do que desejaríamos. Quanto vocalista-guitarrista Henry Leone Johnson apenas precisa de aprender a deixar-se levar mais. Quando conseguir desprender-se do que está a fazer e agir por instinto, a sua atitude acabará por derrubar o hedonismo e tudo fluirá de forma mais natural. Até porque a pose já a tem aos montes…

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Quanto às surpresas, destaque para o próximo single(?) da banda, que contou com a participação das integrantes das Vanity Sessions nos coros a fazerem de harpias (e isto é um elogio, mesmo que não pareça) – para quem não sabe, as Vanity Sessions são umas meninas que metem discos no circuito rock mais underground de Lisboa – e para Frágil, de Jorge Palma, que encerrou o concerto no encore, numa versão que caminhou na corda-bamba entre o interessante e o ridículo.

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E se aos Murdering Tripping Blues faltou atitude,aos Born a Lion esta até foi demais. O baixista Melquiadez parece ter tirado um curso em manter intocável a pose romântica do rocker desleixado de quem se está a lixar para tudo e o vocalista-baterista Rodriguez (Kaló, dos Bunnyranch, já não está só neste campeonato) tem, claramente, licença oficial para cantar os blues, com feeling e muita alma. 

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John Captain, o álbum de estreia da banda, é um excelente disco de coutry/blues-rock, em que o vozeirão à Johnny Cash de Rodriguez ganha predominância sob as canções que evocam espíritos antigos de perdição dos campos de algodão do Mississipi e das pradarias do Texas. Ao vivo, a banda ganha em distorção e a guitarra de Nuñez dá sentido à descrição de power-trio. 

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Menos Johnny Cash e mais Motorhead, os Born a Lion foram crescendo de tema para tema, passando por uma versão demolidora de American Ruse, dos seminais MC5. Contudo, o que foi crescendo também foi o mau feitio da banda, descontentes com algo. Seria a quadra cristã que se celebrava? Seria o facto de o público ter ficado reduzido, depois de a sala ter ficado despida dos vários amigos que haviam vindo para os Murdering Tripping Blues? Ou seria apenas o rock'n'roll a falar? O certo é que se ouviram injúrias de Jesus Cristo ao rock nacional, qalquer que tenham sido os motivos.

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Não houve encore, mas apenas uma bateria caída pelo solo e uma guitarra a soar infinitamente… No fundo, também o mau feitio faz parte da atitude rock'n'roll… E a verdade é que resulta.

 

 

 

 

 

Texto: Pedro Soares

Fotos: Vítor Nascimento 

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