| AO VIVO | Nobody’s Bizness & Chris Jagger’s Achta! @ Douro Blues

Jun 2nd, 2008 | Por Nuno Afonso

Existe no nosso país um curioso fenómeno musical que continua a fazer-me espécie: os festivais de jazz. Não existe em Portugal um única sítio, desde a mais cosmopolita cidade até à mais desconhecida terreola do interior, que não tenha o seu próprio festival de jazz. No fundo, a coisa até se percebe e é fácil de explicar. Qualquer equipa política gosta de mostrar ao zé povinho que é uma autarquia atenta e preocupada com a cultura dos seus cidadãos e, para isso, não há melhor forma de apostar num festival anual, que é cada vez mais um barómetro da qualidade cultural de uma localidade. E que melhor escolher do que um festival de jazz, estilo musical erudito e sofisticado (a própria pronúncia da palavra é bem erudita, com o silibante jaaazzz… e não há um único socialite da nossa burguesia que não oiça jazz), que demonstra muita classe junto do povo, que depois acorre em massa para ser bem visto junto dos amigos. É como um Rock In Rio para subir na hierarquia social lá do bairro. Ou então sou só eu que estou a ser ruim, mais o meu mau feitio.

O que é certo é que todas as terreolas em Portugal têm um festival de jazz. Porquê jazz? Não chega já? Lisboa então tem uma mão cheia deles… Há um par de anos atrás um fenómeno semelhante ameaçou invadir o que resta das nossas povoações, mas tal não pegou e foi fugaz: falo dos festivais de world music. Sejamos sinceros: jazz ainda conseguimos gramar, agora música esquisita de África… Não me lixem. 

Porque é que será que nunca nenhuma autarquia se lembra de fazer um festival de blues? Até porque é uma grande lacuna do nosso país, limitado a raras excepções: existe o de Viana do Castelo, que vai acontecendo timidamente; existe o de Coimbra, que de blues tem cada vez menos; e existe o de Gaia, que nem sempre acontece. Em Setúbal surgiu em tempos um projecto para um, mas morreu antes sequer de nascer. E no seu lugar surgiu um festival de… jazz(!).

Pois bem, desculpem-me esta longa introdução mas precisava desabafar. E agora que já está, deixem-me falar-vos do Douro Blues, o mais antigo festival de Portugal, que parece ser uma aposta forte da Câmara de Gaia para os próximos tempos recentes. Amén! Este ano, o festival dividido por quatro dias, apresentou um cartaz humilde, mas bem apelativo, com o de melhor que se faz em Portugal na área do blues, e com dois nomes de peso: Chris Jagger, irmão do Jagger que vocês estão a pensar, e a nova Tina Turner, Shemekia Copeland, a filha do incontornável Johnny Copeland.

Dispensável era apenas o discurso de abertura de Mário Dorminsky, com as palavras do coitadinho. O sucesso dos festivais determina-se pela qualidade do seu cartaz e não por palavras. Se houve quem preferiu ir ao Rock In Rio no mesmo dia, problema o deles. Não é mau gosto, porque estes não se discutem. No máximo, lamentam-se. E eu já vi o Lenny Kravitz ao vivo e gostei. O que é que isso faz de mim?

Os lisboetas Nobody's Bizness, que abriram o certame, são uma daquelas bandas que me fazem confusão como é que não são mais faladas na comunicação social. Como o próprio nome indica, são uma banda que homenageia os blues do Mississipi, de raiz acústica e, arrisco a dizer, quase telúrica: Muddy Waters, Robert Johnson ou Willie Dixon, são algumas das lendas cujas versões ecoaram no Auditório de Gaia: Come On In My Kitschen, Sittin' on Top of the World ou I Can't Be Satisfied. Mas a eletricidade também se fez ouvir; e ainda bem, porque Luis Ferreira nasceu para se fazer ouvir com uma guitarra nas mãos.

Mas quem se destaca nos Nobody's Bizness é a sua vocalista, Petra, dona de um vozeirão capaz de arrepiar as pedras da calçada. Quem precisava de ir ver a Amy Winehouse ao Rock In Rio quando podíamos ter a Petra ali ao vivo e a cores. Logo ao segundo tema, o homónimo Ain't Nobody's Bizness, Petra gelou tudo e todos, evocando so fantasmas de Billie Hollyday e Bessie Smith.

De facto, é nesta junção entre a voz de Petra e a de Catman que os Nobody's Bizness se destacam no panorama nacional do blues, sendo muito provavelmente a melhor banda portuguesa do género na actualidade. Temas como The Same Thing funcionaram às mil maravilhas com as vozes de ambos a dialogarem com promiscuidade e cumplicidade. Só foi pena a harmónica de Catman não se fazer ouvir mais vezes.

A noite já estava então ganha, mas anda faltava a estrela da noite: Chris Jagger e a sua banda Achta!, que inclui um músico grande como o caraças: Charlie Hart, ex-teclista de Eric Clapton. Chris Jagger podia ser conhecido apenas como o irmão mais novo de Mick Jagger, mas há mais qualquer coisa nele que merecem a pena destacá-lo. Mesmo que de forma ligeira. Nesta sua formação, Chris Jagger aborda o blues pelo lado francês de Nova Orleâes, o zydeco, que emula a folia que os mais distraídos reconhecem mais facilmente de Yann Tiersen.

Foi nesta fusão entre o blues e o folk que se fez o concerto de Chris Jagger, a comandar uma banda de músicos competentes, mas que se transcendia quando Chris Hart trocava as teclas pelo acordeão, fazendo lembrar Clifton Chernier (ou um Jerry Lee Lewis a tocar de forma rebelde um acordeão). É que quando a coisa andava pelas baladas (Baby In Blue, por exemplo, foi um pastelão), fazia lembrar os piores momentos dos Rolling Stones. E isto não é um elogio.

Divertido e festivo, Chris Jagger (com o bucho cheio de vinho do Porto) improvisou, dançou e puxou pelo público, que teimou em manter-se colado às cadeiras, quando a música empelia o corpo para o baile. Faltou uma fogueira acesa e uma banquinha a vender álcool para a coisa ganhar contornos inesquecíveis. Assim, foi só um final de noite bem passado.

Pedro Soares

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www.myspace.com/nobodysbiznessband 

www.myspace.com/chrisjaggersachta 

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