| Ao Vivo | Ornette Coleman @ Aula Magna

Nov 6th, 2008 | Por Nuno Afonso

Já existem poucas lendas vivas entre nós que tenham marcado tanto a história da música.
É verdade que este ano fomos brindados com as presenças de Bob Dylan, Leonard Cohen ou ainda Lou Reed mas de facto um concerto de Ornette Coleman é sempre um acontecimento especial. Mais que um mero nome ou um mero músico, Coleman é sinónimo de criatividade e revolução. No jazz e na música em geral. Porque depois de discos míticos como The Shape of Jazz To Come ou Free Jazz (que de resto definiu este conhecido sub-género jazzístico) o mundo da música não voltou a ser mesmo. E se pensarmos bem nisto, quantos músicos conseguiram alcançar este estatuto? Sempre controverso e nada unânime, mesmo entre os aprteciadores de jazz, Coleman é por assim dizer um eterno enfant terrible na música, até aos dias de hoje. E como se fosse preciso provar algo, ontem Coleman e companhia mostraram a uma plateia sedenta na Aula Magna, a essência do jazz. Seja ele free ou não.

De sala composta mas ainda longe de estar lotada, Coleman entra em palco pouco passava das 21h30, cumprindo rigorosamente o horário. Com ele, acompanhavam-no o filho Denard Cohen (na bateria), Al Mcdowell (no baixo elétrico) e ainda Tony Falanga (no contra-baixo). E não foi preciso esperar muito para perceber que estávamos perante uma figura e um ensemble de luxo. Em destaque estava o mais recente disco Sound Grammar mas claro que numa carreira tão extensa, haveria de surgir espaço para revisitações e surpresas.

Não foi necessário esperar muito para entrar de corpo e alma no universo de Coleman e logo no primeiro tema apresentado, o ensemble oferece-nos uma sempre surpreendente lição de jazz juntando da melhor forma, imprevisibilidade e harmonia. E mesmo sabendo e conhecendo esta atitude tão característica de Coleman, nunca deixa de ser uma experiência única, poder observar e sentir efectivamente, toda esta beleza e fascínio. E no tema seguinte, já a abordagem é diferente. Mais próxima do modelo tradicional – quanto baste – e as linhas melódicas ganham aqui uma outra vida, uma outra dimensão. Sente-se uma certa evocação por parte de Coleman e imediatamente reconhecemos a faceta mais intimista e contemplativa do músico. E do seu saxofone transpira uma inquietude irradiante, digna de quem sabe o que faz.

A dada altura, o fantástico contra baixista Tony Falanga – acompanhado de um arco de violoncelo – inicia uma certa jam esquizofrénica a partir de uma conhecida composição clássica, com Coleman e os restantes músicos a entrarem numa sessão de pura criatividade e até de algum humor à mistura.

Para o final, já em encore, o clássico Lonely Woman que acabou com uma esperada e muito merecido ovação do público. Matematicamente, assistiu-se a uma e meia de lição jazz na Aula Magna. À nossa frente, um dos mais importantes músicos na história do jazz, humildemente a agradecer-nos. Uma noite memorável.

Nuno Afonso

Site Oficial

Ouvir Ornette Coleman Last Fm

Nota: Mais uma vez não foi possível fotografar o concerto em questão. Prometemos em breve resolver este problema.

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