| Ao Vivo | Rendez Vous Festival @ Club Setubalense
Out 28th, 2009 | Por Nuno AfonsoNo fim de semana passado as sonoridades do jazz e música experimental estiveram em destaque no Rendez Vous Festival de Setúbal. Naquela que é a sua segunda edição, este ano a organização World Community Of People apostou na forte na divulgação da música mais livre. Quatro dias de concertos e cinema que contou com a presença de nomes nacionais e internacionais. O Club Setubalense foi o local escolhido para acolher o evento.
[Quinta 22.10.09]
Jason Kahn & Manuel Mota

Um dia Derek Bailey elogiou o trabalho de Manuel Mota, elegendo-o como um dos guitarristas mais interessantes do nosso tempo. O seu percurso não engana: tendo tocado nos Osso Exótico e colaborado com Sei Miguel ou Ernesto Rodrigues, o músico tem ganho uma reputação cada vez mais notória quer a nível nacional quer internacional. A sua abordagem não é de todo linear ou concreta e o silêncio é aqui parte integrante do próprio conceito de música. Entre as coordenadas de Bailey e a teorização de Cage, Mota desenvolve uma técnica muita física com o instrumento em que se torna vital a amplificação dos pequenos detalhes. Cada som obedece a uma própria respiração, quase unificadora, entre guitarra-músico. Mais que objecto, a guitarra é extensão de Mota. Neste sentido, é inegável a sua técnica fingerstyle e o apreço da sua execução mas na verdade este é um terreno perigoso, bem perigoso, e que em pouco tempo se pode transformar num indesejável teste à atenção de quem o escuta.
Denotamos aquele certo pulsar meditativo e característico do seu trabalho assim como uma natural exploração de ambientes que todavia tendem a entrar num jogo gélido de harmonias, sem chama ou alma. Faltará por ventura mais cor, mais corpo e ritmo. A prestação de Jason Kahn (que acompanhou Mota) acabou por se revelar bastante inteligente, certeira e crucial, incorporando sabiamente a percussão e o sintetizador nas atmosferas criadas pelo guitarrista.
Pouco sangue e pouca carne na sua actuação, demasiados ossos. Se Mota noutras ocasiões conseguiu surpreender, no Rendez Vous deixou uma pálida imagem. Talvez num outro formato o cenário fosse outro.
[Sexta 23.10.09]
Mikado Lab

São seguramente uma das formações mais inovadoras do jazz nacional, se bem que aqui o termo jazz possa ferir susceptibilidades aos gostos mais puristas. Os Mikado Lab são uma pequena grande maravilha em forma de trio (bateria, baixo eléctrico e teclados) que levam o jazz a passear pela via láctea da pop. Os teclados lembram-nos os Stereolab mas a inquietude da bateria e a irreverrência do baixo situam-nos num campo mais livre e, por vezes, mais esquizofrénico. Em todo o caso há a destacar duas características-base: a qualidade dos músicos e a sua recusa de lugares-comuns. Quando uma se junta à outra, temos casamentos felizes como Mikado Lab. Tendo o bom senso de não cair na tentação de uma abordagem ora muito tradicional, ora muito extremista, a banda cria espaço próprio para ambas sem perder uma atitude cool. É de jazz que falamos, afinal.
Em destaque estiveram os dois discos do trio, com especialmente destaque para o último Coração Pneumático. Ao vivo, as composições ganham uma natural força e dimensão e aqui e ali vão existindo alguns apontamentos de improvisação sem perder aquele suco doce que de resto a banda cultiva na sua música. Esse confronto entre a doçura da melodia e o arrojo com que se atiram à mesma, acaba também por ser uma tónica maior no seu trabalho. A habilidade e criatividade da banda espelha a mesma habilidade e criatividade requerida no jogo tradicional japonês e que dá nome ao grupo.
Terminada a actuação fica a sensação de que a banda explora actualmente um território muito próprio, muito seu.
Coclea

Guilherme Gonçalves é um dos nomes de uma nova geração de músicos que têm vindo a abrilhantar o panorama de música livre nacional. Parte integrante de Gala Drop, aqui apresentou-se a solo como Coclea. Partindo de um cenário psicadélico e até progressivo (entre o krautrock alemão e a espiritualidade oriental), a colagem sonora de Coclea conhece várias e diferentes texturas. Se por momentos atravessa cenários sónicos e espectrais, noutros explora uma diversidade de harmonias que inevitavelmente desaguam num mar de cores inebriantes e num jogo de sons próximos de uma natureza orgânica. Não sabemos exactamente ao que soam mas permanecem-nos familiares e estimulantes. Através de um único tema, Coclea criou uma esfera onde se sentiu tudo isto e apenas pecou por ter sido demasiado curta (tristemente curta, diga-se). Seguramente as pistas lançadas seriam suficientes para um descolar (ainda) mais estratosférico. Minutos à parte, ficou a imagem de uma fugaz mas positiva passagem pelo Rendez Vous.
[Sábado 24.10.09]
Benoît Delbecq
Delbecq é um pianista curioso. Ele leva-nos a questionar e a percepcionar várias coisas. Várias coisas ao mesmo tempo, diga-se. Uma dessas questões é precisamente a própria definição do seu instrumento: pertencerá este – mais correctamente – à secção de cordas ou de percussão? Não querendo aprofundar esta questão para o caso, o músico francês apresentou no passado Sábado uma intensa actuação em que o piano ganhou uma quase-mutação em tempo real. Isto porque cada tema interpretado o instrumento ganhava constantes transformações no som das cordas através do uso de pedaços de madeira ou borracha. O resultado foi uma sonoridade bizarra mas fascinante, a lembrar (e muito) alguns instrumentos ancestrais de percussão africana. Na sua obra a recurso à música electrónica é ocasionalmente utilizado mas em Setúbal esse lado ficou de parte, optando por uma abordagem mais acústica e literalmente mais física.
As bases rítmicas minimalistas e as harmonias desconcertantes lembrariam, a espaços, um outro francês: Erik Satie. Quase inconscientemente ou nem tanto, também reconhecemos um lado semi-lúdico, meio infantil em algumas das peças de Delbecq.
Em abono da verdade, a sua natureza reside nessa indefinição de estilo. Se por um lado se assume como um executante rebelde e inconvencional, por outro lado demonstra sem pudor toda a sua técnica mais academista sempre complexa e inconstante, aproximando-o a um género mais clássico.
Durante cerca de uma hora, o músico ofereceu-nos uma formidável lição de improviso e inquietude musical. Cruzando culturas, épocas e conceitos. Muito para lá do jazz, talvez mais próximo da música concreta, com um pé lá e outro cá, defini-lo é inútil. Mais urgente sim, será escutá-lo, compreendê-lo. Delbecq é de facto um pianista curioso.
Sei Miguel Metal Music Four: The Jewel System

Houvesse mais justiça no mundo e Sei Miguel seria mais reconhecido pela sua obra de quase trinta anos. Quase trinta anos de inconformidade estética, de renovação do jazz nacional e acima de tudo, de mestre e pensador da música portuguesa. Esteve ao lado de João Peste (Pop Dell´Arte), colaborou com inúmeros músicos de renome como Rafael Toral ou Manuel Mota e foi figura assídua no Ritz Club nos anos 80. Resumo: trata-se de uma figura absolutamente incontornável e única. Mas basta de factos biográficos (até porque para isso existe a Internet) e concentremo-nos no programa The Jewel System, apresentado no Rendez Vous. Um conjunto de várias peças de onde foi interpretada apenas uma, curiosamente a “mais careta”, segundo o próprio Sei Miguel.

Habitualmente em formato trio (Sei Miguel, Fala Mariam e César Burago) aqui, sob a designação Sei Miguel Metal Music Four, Pedro Gomes (guitarrista dos CAVEIRA) apresentou-se como o quarto elemento da banda. Um tema-mosaico de cerca de quarenta minutos alusivos a uma vastidão de imagens sonoras. Uma peça esparsa e sinuosa – talvez daí o uso do termo “careta” - que viveu muito da percussão de Burago e das guitarras de Gomes. Duas prestações que se complementaram num espaço aparentemente aleatório mas revelador de uma preocupação estética bastante cuidada. Criando atmosferas densas e mais negras, Gomes traçou coordenadas reunidas numa tríade de ruído, força e espiritualidade. Burago, por sua vez, demonstrou toda a sua sensibilidade a partir de uma complexo jogo rítmico envolvendo uma série de objectos e tempos. Limando arestas e conferindo uma intensidade luminosa à peça, o trombone de Fala Mariam e o trompete de Sei Miguel surgiram menos do que seria de esperar mas sempre como assumidos meios orientadores da peça (com especial incidência no trompete). O pulsar mais jazzístico sentiu-se ao longo de toda a actuação do quarteto apesar do carácter mais conceptual do mesmo. É verdade que a preocupação pelos pormenores tem sido uma maior tendência nos trabalhos mais recentes de Sei Miguel, por vezes quase trabalhos de laboratório mas é interessante reparar que ele nunca, em tempo algum, deixa de ser aquilo que simplesmente tem sido desde sempre: um jazzman.
Dotado de uma linguagem cada vez mais própria e de um espírito cada vez mais inventivo, ainda há muito por escrever sobre este músico.
[Domingo 25.10.09]
These Mountains

Os These Mountains foram um diálogo intimista entre Jonny Fryer e Nicolas Burrows, o primeiro na guitarra eléctrica e o segundo na percursão. Influenciado, inicialmente, pelos ritmos latinos e, depois, pelos sons arábicos, Jonny Fryer foi tecendo uma enorme e prolongada mantra na sua guitarra elétrica, ensaiando uma viagem espiritual por ritmos flutuantes e embalatórios, numa espécie de transe minimalista, enquanto Nicolas Burrows pareceu um pouco imitado/envergonhado pela forma em que pareceu deixar de fora muito do potencial da sua bateria. Para o final, Jonny Fryer ainda teve um momento inspirado, transformando a sua guitarra numa guitarra-slide ao recorrer a uma baqueta.
Glaciers
Nicolas Burrows, enquanto Glaciers, parece um one-man band: guitarra nas mãos, um pé no pedal de bombo e outro sobre uma pandeireta. No entanto, não é rock’n'roll que se ouve, mas antes uma pop lo-fi, com voz delicodoce, que tanto se aproxima da neo-folk cristalizada na colectânea The Golden Apples of the Sun, como da pop nórdica de El Perro Del Mar. Tímido, mas com grande segurança na guitarra e nos falsetes, Glaciers serviu, simultaneamente, de despedida do Rendezvous e de saudação aos primeiros dias de frio que aí vêem.
Paralelamente aos concertos, o festival apresentou quatro sessões de cinema distribuídas em três filmes dedicados a música. O lendário Blow Up de Michael Antonioni, foi a primeira película a rodar no Rendez Vous, seguindo-se On The Edge do incontornável mestre vanguardista Derek Bailey e finalmente, Wild Combination um fabuloso retrato de outro grande vulto chamado Arthur Russel.
Textos: Nuno Afonso
Colaboração especial na fotografia por Rui Monteiro
http://www.flickr.com/photos/rui_monteiro/
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