| Ao Vivo | Sean Riley & The Slowriders + Howe Gelb @ Sintra Misty
Out 24th, 2011 | Por Nuno Afonso
Ainda nos lembramos dos primeiros tempos de Afonso Rodrigues, enquanto o seu alter-ego Sean Riley, e os seus Slowriders. Foi apenas em 2007, mas parece que já foi há bem mais tempo que saiu o disco debutante da banda, “Farewell”, com a voz aconchegante de Sean Riley e uma música exposta, frágil e cativante. Agora, ao terceiro disco (”It’s been a long night” serviu, essencialmente, de cartão de visita a esta passagem pelo Sintra Misty), Sean Riley & The Slowriders continuam a movimentar-se pelas raízes da música norte-americana, mas agora com mais segurança e à-vontade pelo palco. E essa atitude reflecte-se no som das suas canções, mais cheias (o trio, em palco, estende-se a quinteto, com uma bateria completa e segunda guitarra), com arranjos mais ricos e uma amplitude maior. Como se o western de Sean Riley fosse agora em versão technicolor.
O grande trunfo de Sean Riley & The Slowriders continua a ser a voz de Afonso Rodrigues, enquanto que as teclas de Filipe Costa dão-lhe um toque distinto de classe, mas a banda continua de olhos nos grandes mestres do folk e do blues norte-americanos. Por isso, as associações são inevitáveis, seja Dylan, seja Cash, seja Buckley-pai. Cm um equilíbrio perfeito entre a folk mais calma e o blues mais rock’n'roll, Sean Riley & The Slowriders provou mais uma vez que o filão musical de Coimbra continua a ser aquele que coisas mais interessantes dá à música nacional.
Howe Gelb já tinnha avisado que, em Sintra, viria sozinho, deixando a sua Band of Gypsies, a banda com quem gravou o disco espanholado “Alegrias”, descansadinha em casa. Podíamos então esperar mais uma incursão pelo mundo da Americana, desta vez guiados por um furacão do Arizona chamado Howe Gelb.
Todas estas expectativas eram razoáveis, se Howe Gelb fosse um tipo normal. Sim, porque além de compositor de eleição, voz de crooner inconfundível e músico hiperactivo (seja a solo, seja com os (vénia) Giant Sand ou seja com os Arizona Amp), Howe Gelb não é um tipo de chegar e limitar-se a estar. Por isso, a sua passagem por Sintra corre o risco de ser tomada por displicente (no mínimo, tendo em conta o número de pessoas que entretanto abandonaram a sala a meio), pela forma como o norte-americano por momentos transformou o seu concerto em sessão de músicas pedidas, conversou longamente com o público ou pôs-se a vender cds em palco como se estivesse na feira de Carcavelos.
Contudo, assim que agarrava a sua guitarra eléctrica, a conversa era outra: electricidade a escorrer belo braço da Epiphone, folk em registo cetim ou rock’n'roll a cuspir pregos, baladas de amor ou honky-tonk blues de roadhouse algures no deserto. Mais do que alt-country, a Americana de Howe Gelb é de provocação, misturando registos e tonalidades de géneros na mesma canção. Se bem que ao piano o seu blues é mais convencional, mais cabaret mas com o piano não tão bêbado quanto o do outro.
No final, como que combinado, Howe Gelb terminou a actuação à meia-noite quase em ponto, o que fez com que se despedisse de Sintra após lhe cantarem os parabéns. É que Gelb fazia 55 anos. E foi ele que nos deu a prenda.
Texto: Pedro Soares
Fotos: Helena Reis







