| Ao Vivo | Yo La Tengo @ Aula Magna
Mar 16th, 2010 | Por Nuno Afonso
Se houve alguma espécie de lição a tirar no passado Domingo foi de que os heróis não se abatem com facilidade. Perante uma Aula Magna composta mas longe de esgotada, os Yo La Tengo recordaram-nos porque são quem são e porque provavelmente ainda cá andarão mais uma década a fazerem de nós pessoas mais felizes. Não deixa de ser contudo sintomático o facto de jovens bandas como The XX ou Florence + The Machine esgotarem a mesma sala em questão de dias (mas enfim, serão outras questões para outras ocasiões). Em 2010 escutar e ver os Yo La Tengo continua a ser tão motivante e compensador como em 1999. E a explicação é simples: é raro observar uma banda tão própria, tão segura de si mesma. Atravessando géneros e décadas, o trio norte-americano faz de tudo um pouco com inegáveis registos de coerência e genuinidade.
Em duas horas de actuação, a banda entrou em palco de forma repentina e discreta e sem perder tempo guiou-nos directamente para alguma da sua melhor fase shoegaze. O ruído e a doçura sempre convergiram muito bem no mundo dos Yo La Tengo e não seria agora que isso iria mudar. A primeira intervenção de Ira Kaplan (voz e guitarra) deu azo a um dos episódeos mais humorísticos e descontraídos dos últimos tempos. Uma observação de Kaplan a respeito das cadeiras de aspecto confortável (como o próprio referiu) da Aula Magna levaram a que minutos depois o músico descesse às mesmas e tocasse – confortavelmente sentado – do lado do público. Após o pulsar nocturno e esquizofrénio de Tired Hippo (primeira revisitação ao disco And Then Nothing Turned Itself Inside Out), a banda apresentou alguns temas do mais recente Popular Songs. Graciosidade na música e um à vontade na atitude que levaram a que por diversas vezes os músicos trocassem de instrumentos entre si como se de repente as centenas de presentes na Aula Magna tivessem sido transportados para uma íntima sessão caseira numa qualquer garagem de ensaios. Sensação essa que nos acompanhou ao longo do concerto até mesmo quando a banda se atira, de unhas e dentes, ao clássico We´re An American Band. Parece que os anos não passam pelos Yo La Tengo e ainda conservam aquela mesma frescura e quase-ingenuidade digna da melhor arte teen pop. E para que não existissem dúvidas disso mesmo pouco depois surgiu Sugarcube (um torrãozinho de açucar intemporal no rock independente) que nos levou numa viagem ao tempo até ao disco que marcou tantas almas em 1997, I Can Hear The Heart Beating As One. Ainda antes dos inevitáveis encores, houve tempo para uma profundo e revigoroso mergulho em The Story Of Yo La Tango. Um momento-chave que encerrou, na mais simples perfeição, a primeira hora e meia de música.
Felizmente não seria tudo e já em modo encore, eis a versão (inesperada) de Bad Politics dos neo-zelandeses The Dead C com o habitualmente baixista James McNew a assumir o papel de vocalista. Para nos recordar que ainda estávamos naquela imaginária garagem de ensaios da banda, Kaplan questionou ao público sobre quais os próximos temas que gostariam de escutar. As respostas multiplicaram-se (como é habitual nestas ocasiões) mas foi o belíssimo You Can Have It All que tomou corpo pela voz da baterista Georgia Hubley. Até ao inevitável final, The Hours Grow Late foi a despedida dos Yo La Tengo rumo à cidade da Invicta, para outro concerto. Naquela momento, a Aula Magna aplaudia de pé não apenas pelo concerto que acabariam de assistir mas principalmente por tudo aquilo que os Yo La Tengo nos têm dado nestes longos anos. Afinal de contas, enquanto eles cá andarem, sabemos que estaremos bem acompanhados.
Texto: Nuno Afonso
Fotos: Veronica Electronica





