| Ao Vivo | Bridget Hayden + Marisa Anderson @ ZDB, Lisboa
Set 27th, 2011 | Por Nuno AfonsoNuma realidade hipoteticamente dividida num ‘antes’ e ‘depois’ da renovação da guitarra por Bill Orcutt, poucas serão realmente as mãos capazes surpreender genuínamente este mundo em modo pré-2012. Sem rasgos de revolução maior, noite bem entregue a duas senhoras que, no entanto, não cedem a imediatismos. Guitarra em contemplação junto ao rio vs guitarra em possessão junto ao precipício. Dois caminhos possíveis de perdição.
Das labaredas dos incontornáveis Vibrathedral Orchestra, ao lado de Mick Flower e restante tropa, Bridget Hayden trouxe os benefícios (e malefícios) da trip xamânica para o seu trabalho a solo. Peneirando o blues pelo drone e a folk pelo fuzz, sobram pedaços combinados de matéria intensamente apetecível e vagamente identificável. Tudo cristalizado e devidamente conferido no último A Siren Blares In An Indifferent Ocean.
Pela ZDB, a figura esfíngica de Hayden fez-se guiar por uma incursão sonora bem diferente. Se as referências do espectro metal, embebido pelo drone em aguda voltagem, compunham possíveis coordenadas para o momento, essas conheceram uma natureza bem mais implosiva e (estranhamente) ambiental. A espaços, a atenção e imaginação poderiam facilmente levar-nos às paragens difusas de Grouper ou Noveller e até mesmo, a nível vocal, às paisagens devastadoras de Christina Carter. Tomando uma consistente muralha de som bruto como epicentro de múltiplas expressões, a actuação de Bridget Hayden apelou a uma sensação quase letárgica, simultâneamente frágil e opressora (passe a contradição). O tratamento pela repetição explicou, em parte, essa ambiência dreamy. Uma passagem longe de apaziguadora, pois o ruído e veneno transfiguraram correctamente a ocasião, mas em modo provavelmente mais planante e inquietante do que o esperado.
Por sua vez, Marisa Anderson mostrou-se, esteticamente, menos hermética. Apadrinhada pela Mississipi Records, trouxe consigo uma herança profunda de uma América reconhecida no delta blues que dispensa recursos técnicos complexos. De facto, é na naturalidade assumida que reside não só o fascínio da sua improvisação como igualmente a presença da guitarrista. Instrumentais evocativos, aliando melodia à dissonância propositada.
Naturalmente telúrica, a sua música possui um leve psicadelismo, pouco ou nada agressor, mas definitivamente reconfortante. Anderson desfilou peças (algumas vindas do mais recente The Golden Hour) que espelham essa mesma autenticidade intemporal, ao mesmo tempo que sublinham a variedade harmónica aqui existente. Um concerto de aconchego.
Texto: Nuno Afonso
Foto: Tânia Pereira M





