Deolinda: a evolução do Fado

Mai 28th, 2008 | Por Nuno Afonso

Quer se queira quer não, a música reflecte a identidade cultural de um certo espaço num determinado tempo. Não é por acaso que vários estilos musicais têm ficado ao longo dos anos associados a determinadas localidades, como o jazz a Nova Orleães, o new wave a Nova Iorque, ou o pós-punk a Manchester.

Todos sabemos que o fado é o género musical tradicional do nosso país. Desde que a Severa o resgatou da marginalidade e o inseriu na alta roda burguesa, que o fado se misturou com o nosso próprio código genético e se tornou numa das nossas impressões digitais. Contudo, a música não é estanque e vai evoluindo e transformando-se ao longo dos anos, adaptando-se aos novos tempos e às novas realidades. E, infelizmente, o nosso fado parece continuar adverso a essa coisa do progresso.

O fado precisa de evoluir e de mudar. É certo que ele é a expressão musical daquele nosso sentimento muito genuíno, a saudade, palavra para a qual não existe sequer tradução noutras línguas. Somos um povo triste e saudoso, temente a Deus, cujas famílias eram separadas pelo mar, primeiro pela pesca, depois pelos Descobrimentos e depois por ambos ao mesmo tempo. Mas hoje em dia, em pleno século XXI, já ninguém vai para o mar descobrir continentes longínquos nem a pesca é já uma actividade tão perigosa e ausente como era dantes. Por isso, não faz sentido ver meninas a cantar sobre a saudade e a partida dos maridos para o mar, quando elas nem sequer são casadas, nem tão pouco viram o mar alguma vez na vida se for preciso.

O fado precisa de se adaptar ao século XXI. Dou-vos um exemplo: nos anos 70, o punk surgiu como um estilo que se rebelava contra a sociedade condescendente e as injustiças socio-políticas do universo anglo-saxónico. Os jovens, cansados da opressão e de um futuro em risco, expressavam a sua frustração numa música agressiva e reaccionária, que durou até aos dias de hoje. Contudo, em pleno século XXI, a pobreza, a repressão e outras desigualdades sociais são quase uma brincadeira nesses mesmos países. Não fazia sentido ver miúdos mimados a queixarem-se de não receberem uma mesada maior, ou dos pais não lhes darem o automóvel de alta cilindrada que queriam (os emos são um caso à parte). Por isso, nesta nova onda de punk-rock que nos assaltou na viragem do séxulo, os porta-estandarte foram uns certos miúdos mimados e bem vestidos, chamados The Strokes. As letras já não eram sobre a anarquia, mas antes sobre raparigas e o consumismo. Sinal dos tempos…

O fado precisa de se renovar. É certo que tem surgido uma nova geração de fadistas muito talentosos, mas a Mariza, a Ana Moura ou o Camané são apenas malta nova a cantar o mesmo fado de antigamente (mais coisa menos coisa). Quando estreou no ano passado o filme Fados, do espanhol Carlos Saura, Carlos do Carmo afirmou que o fado necessitava de uma revolução cultural como a que sofreu o tango, pelo Astor Piazolla (não, não foram os Gotan Project). Nunca o Carlos do Carmo disse algo tão acertado… 

Talvez a melhor pista para responder a esta questão esteja na música de Deolinda, quarteto lisboeta que acaba de se estrear em disco com Canção ao Lado. A sua música não se fica pelo fado tradicional, mas a forma como o cruza com as mais variadas correntes da música tradicional portuguesa podem dar um bom indício para onde o fado deve ir. Ana Bacalhau, a voz de Deolinda, é uma Severa do século XXI, que não se importa de utilizar registos vocais diferentes para cantar o fado. A sua própria banda insere na estrutura tradicional do fado instrumentos pouco habituais no género, como o contrabaixo. E, pasme-se, não têm pejo de conspurcar as suas letras com estrangeirismos e calão. Como se o português tradicional do século XXI não utilizasse calão! Até o teledisco do single, Fado Toninho é castiço como tudo…

Canção Ao Lado é um dos grandes discos nacionais de 2008. E numa altura em que anda tudo maluco com o novo disco do Camané, vejam lá se dispensam um pouco mais de atenção a esta pérola. 

Pedro Soares

..::..Myspace..:::..

http://www.myspace.com/deolindalisboa 

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3 comments
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  1. Os meus parabens pelo site amigos, e principalmente ao Sr Pedro pela critica apresentada a estes “DEOLINDA”. Muito boa escrita aqui se usa…Como diz o outro, há muita classe aqui;)

  2. Na parte que me toca, muito obrigado :) ass: Pedro

  3. a aqui o link to album para quem quiser ouvir…mas se gostarem comprem o cd pf !!!
    http://rapidshare.com/files/161191728/deolinda.rar

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