| Discos | Andrew Coltrane: Urge To Kill [Cérebro Morto, 2011]
Jan 24th, 2012 | Por Nuno Afonso
Observando o circuito underground norte-americano, Coltrane tem vindo a demarcar-se como uma figura de proa do noise contemporâneo, ex-colaborador dos Wolf Eyes, John Olson ou Sick Llamas e detentor de um vastíssimo laboro distribuído por diversas editoras, incluindo a sua própria Hermitage Records. No entanto, é através da portuguesa Cérebro Morto que surge Urge To Kill, mais uma premente declaração de vitalidade, robustez e engenho. A noção de onde parte e para onde quer chegar, com tudo o que de mais cativante acontece entre um e outro ponto, releva a capacidade construtiva invejável do músico de Detroit. Ao longo de duas visões em modo de peças, Coltrane desfigura formas e cria espaços irreconhecíveis a uma cartografia exata.
Os momentos iniciais do primeiro tema fazem-se de um grito de invocação, reforçado pela energia contaminante da electrónica mais abrasiva. Um breve, mas intenso, respiro antes da submersão lenta num campo radiativo. O andamento com que este processo ocorre, permite tomar atenção à exploração de efeitos e sensações materializada numa espiral de reverb, progressiva e diluidora. É curiosa a passagem de um momento tão concreto para um lado essencialmente abstrato e em direção a um poço sem fundo aparente. Uma composição notável, desafiadora e inteligente, ilustrativa da classe de Coltrane.
O segundo tema sustem-se por uma via menos cerebal, optando antes pela manipulação e delapidação do estado bruto da matéria a velocidade warp. Oponente e contínua, esta é uma faceta de confronto físico por parte de Coltrane, ou a denominação harsh noise em elevado grau de pureza a recordar, a espaços, algum do melhor trabalho dos incontornáveis neste campo (Merzbow, Hijokaidan, et al). Ainda assim, ligeiramente menos interessante – do ponto de vista estético e concetual – que o caso anterior.
Mais do que uma edição francamente positiva, Urge To Kill expõe uma ótima entrada para trabalhos anteriores do músico (as hipóteses são imensas) e, de um outro lado da questão, reafirma a atenção e a dedicação de uma pequena editora em Coimbra decidida em apresentar cartadas múltiplas. Um duplo winner, portanto.
Nuno Afonso




