| Discos | Ben Frost: By The Throat
Nov 25th, 2009 | Por Nuno Afonso
Há discos assim, que nos assaltam e nos assombram sem aviso prévio. Casos em que a estranheza rapidamente se metamorfoseia em beleza e em que cada segundo de silêncio e cada segundo de ruído se mantêm suspensos como teias. By The Throat é uma dessas obras, complexas e atordoantes, que parecem ter vida própria. Escutamos ritmos cardíacos e corrimentos sanguíneos, pulsações e convulsões num ambiente inóspito mas simultâneamente atraente. Uma mutação genética que combina elementos dos ritmos mais abstractos da electrónica avançada, as sensações e paisagens da música ambiental e a asfixia da música industrial. Nunca cedendo apenas num ou outro ponto, sempre num corpo único e homogéneo. Mais que um disco, trata-se de um circuito sonoro orientado pelo ruído e pela forma como ele rasga ambientes densos e pesados, vislumbrando paisagens gélidas e fantasmagóricas.
Ben Frost conhece bem as potencialidades do suspense dos filmes de terror e explora-as profundamente. Com a ajuda dos amigos Nico Muhly, Jeremy Gara (Arcade Fire) ou ainda do quarteto feminino islandês Amiina, Frost leva-nos a uma viagem inevitavelmente cinematográfica (possíveis referências a Alien, Requiem For A Dream ou David Lynch não hão-de faltar) mesmo que essa não seja a ideia inicial. Apesar do músico compor boa parte da sua música a partir do laptop, facto é que sendo música de laboratório também consegue ter um lado bem mais orgânico e até visceral. Muito provavelmente é essa preocupação de Frost que justifica a participação de outros músicos convidados, por forma a enriquecer algo que à partida poderia soar demasiadamente esquelético ou espectral. Deste modo, a música ganha mais carne, mais músculo e logo, mais corpo. E é neste sentido que By The Throat soa tão diferente e peculiar da generalidade dos discos de electrónica ambiental (sejamos assim vagos, para facilitar a ideia). Porque acrescenta algo mais, algo que não está nem muito longe nem muito perto da composição clássica mas que se inspira também nas potencialidades daquilo a que alguns músicos passam a vida a evitar: ruído. Ben Frost incorpora esse elemento e consegue por vezes transmiti-lo não como algo meramente agreste mas sim frágil. Como pode soar o ruído a algo frágil? Pois bem, By The Throat explica isso mesmo. Seja como for – e uma vez mais – é redutor falar de ruído e fragilidade como base. Mais que X, Y ou Z, mais que audível, esta é música sensorial e desafiante. Não será certamente para todos os ouvidos mas merecerá no mínimo uma viagem. Deixamos apenas o conselho que este é um disco maldito que se infiltra e permanece durante tempo indeterminado e, para já, sem conhecimento de efeitos secundários.
Diabos levem Ben Frost se este não será um dos melhores discos do ano.
Nuno Afonso
Video “Music For 6 Guitars” Live at Iceland Airwaves Festival




