| Discos | Cate Le Bon: Me Oh My
Jan 13th, 2010 | Por Nuno Afonso
Foi há cerca de um ano que entre deslocações profissionais e lúdicas, me cruzei com a música de Cate Le Bon. A sua presença ao vivo logo então fez passar uma imagem forte e introspectiva que me fez render então. Uma imagem que em certo ponto contrapõe o seu aspecto físico de fragilidade e beleza. Me Oh My é o disco de estreia da cantora inglesa editado sob o selo da Irony Bored. Um conjunto de dez canções situadas entre a indie pop e a folk mais intimista sem descurar na carga quase psicótica das suas letras e pela estranheza subtil de algumas das suas composições. Se os últimos discos de St. Vicent ou Deradoorian (Dirty Projectors) vos deixaram rendidos, atenção pois Me Oh My é-vos dirigido sem dó nem piedade.
Colaboradora e amiga de Gruff Rhys dos Super Furry Animals, Le Bon também emprestou voz para o projecto electro-disco de Rhys, Neon Neon. Isto para que se perceba que ela não é propriamente um novata nestas andanças embora currículo em nome próprio ainda só tenha um EP e o presente longa duração. Me Oh My é um cartão de visita sedutor e suficiente convincente para concluirmos que estamos perante uma artista que se movimenta num universo muito próprio. Fazendo uma ponte entre a folk mais psicadélica e impressionista dos anos 60 (via Vashti Bunyan ou Nico) e alguns arranjos mais barrocos (aqui a lembrar por vezes Nick Drake ou Scott Walker), Me Oh My apresenta espaço para uma interessante leitura do que se poderá chamar de nova folk. O fabuloso tema de abertura que dá nome ao álbum é disso exemplo; uma guitarra delicada que caminha por uma alquimia de arranjos e acaba em jeito de arremesso. Esse mesmo gosto por melodias bizarras por ser escutado mais frente em Terror Of the Man (quase isotérico e levemente surreal). Dois grandes temas que no entanto em nada se relacionam com a tal simplicidade de que Le Bon também é capaz (em Sad Sad Feet ou Out To Sea). Embora se sinta uma inevitável energia telúrica e quase onírica, Me Oh My tem fogo que baste para afastar a ideia da folk tal como muitos a possam conceber. Sem ser na verdade um grandioso disco, Cate Le Bon será seguramente uma boa descoberta.
Rita Andrade




