| Discos | David Sylvian: Manafon
Nov 4th, 2009 | Por Nuno Afonso
Com tanta música que por aí anda, entre coisas boas e outras menos boas, existem poucas figuras na música que podemos sempre confiar em cada novo disco pois certamente não irão desiludir. Tom Waits é uma delas, David Sylvian será outra. Ambos têm uma carreira que fala por si embora estejam musicalmente distantes. Cada disco novo de Sylvian é recebido com a devida curiosidade e pompa e circunstância. Com o novo Manafon demonstra (uma vez mais) porque assim é. Um regresso de um herói amado é sempre um bom regresso principalmente quando porque sabemos de antemão que dali só poderá sair coisa boa.
Mais atmosférico e transgressor que Dead Bees On A Cake, este novo capítulo espelha um artista que sabe envelhecer e tornar ainda mais mágica a sua arte. Como um bom vinho que absorve as fragâncias de um casco e os aromas do tempo, Manafon sabe escutar o próprio silêncio e vive também disso mesmo. Respira cada segundo e desvenda cada acorde e cada palavra com aquela classe típica que este senhor nos enfeitiça. Desde a abertura intimista e confessional de Small Metal Gods que pressenti que estava perante um daqueles monumentos na música que são um verdadeiro grower. Hoje soa-nos bem, amanhã soar-nos-à ainda melhor.
Ao longo do disco as arestas de cada tema são limadas por um experimentalismo sempre presente mas tão bem incorporado que chega a ser discreto. Pequenos arranjos de cordas ou de sopros sombrios e frios contrastam da melhor forma possível com a voz quente de Sylvian. É como se estivéssemos numa floresta e pudéssemos escutar todos os sons e barulhinhos da mesma. O cenário acaba por ser esse, uma enorme, profunda e desconhecida floresta em Outono que passo a passo a descobrimos. Um cruzamento entre música de câmara, folk e electrónica abstracta que reflecte também a participação no disco de grandes nomes como Fennesz, Evan Parker ou Otomo Yoshihide.
Tenho para mim que Manafon é daqueles discos que há-que dar algum tempo e atenção. Não é de todo imediato e por isso necessita de uma certa dedicação. Mas escusado será dizer que a recompensa será enorme.
Rita Andrade




