| Discos | Joe McPhee & Chris Corsano: Under A Double Moon [Roaratorio, 2011]
Out 25th, 2011 | Por Nuno Afonso
Porventura este tem sido um ano sadio para o jazz de ‘vistas largas’: da possante estreia de Matana Roberts ao notável regresso de Rob Mazurek, ou ainda esta colaboração entre dois vultos maiores do jazz contemporâneo (e certamente, uns quantos discos mais que memória e/ou tempo dedicado à descoberta e audição não permitam de momento destacar). Afirmando-se como um autêntico encontro bi-geracional, Under A Double Moon é o resultado de uma gravação ao vivo no mítico Les Instants Chavirés em Paris. Um momento de perícia, inteligência e emoção captado para a posterioridade e revelador de um diálogo veementemente coeso e fascinante.
Corsano, que ainda este ano participou no estonteante Lunar Roulette com os SYCH (Wally Shoup, C. Spencer Yeh e Bill Horist), reafirma aqui – tal como tem vindo a fazer – uma vitalidade ímpar, acrescentando sempre elementos como solidez e cor em qualquer uma das suas aparições. De McPhee, as expectativas não seriam menores: pelo seu valor incomensurável no jazz, e demais sonoridades desviantes nas últimas décadas, e pela versatilidade (instrumental e não só) que rege o seu trabalho. 72 anos que continuam a soar refrescantes e humildes portadores de ideias insulares.
A variedade de moods – uma vezes guiadas pelo hard bop, outras por explorações abstractas e extra-sensoriais – acontece, ou vai acontecendo, respeitando uma energia flutuante não necessariamente organizada, mas sim organizadora. O entendimento e a incorporação do papel do silêncio como elemento catapultador ou intensificador sonoro pontuam um exercício criativo do duo, nunca deixando cair o momento em terreno infértil. Sente-se aliás uma classe ímpar na forma com que Corsano confere espaço e esculpe forma para a convulsão de Mcphee, logo escutada no primeiro take de Dark Matter. Da inquietude rítmica, surge a segunda parte, marcada pelo golpe do tenor sax, que pouco ou nada fariam prever a acumulação de uma contemplação já existente na peça anterior e que se consubstancia num encantatório jogo melódico.
Ecoando breves aproximações à tradição, New Voices passeia-se por tons acinzentados, vagamente melancólicos. Instante detentor de um certo sentimento nostálgico tão breve quanto profundo, mesmo quando irrompido pela pujança de For Giuseppi Logan, um claro pacto de admiração ao improvisador de Filadélfia com quem McPhee já se cruzou no passado. A beleza, algo fantasmagórica, do tema final In Lieu Of Flowers remete, inconscientemente, para um universo de Albert Ayler via Spiritual Unity.
Under A Double Moon vale (bastante) por si. Mais que um mero encontro-improviso, é uma partilha expressiva de dois mundos, duas experiências e, no fundo, duas almas fundidas num só corpo. Francamente belo.
Nuno Afonso




