| Discos | Skullflower: Fucked On A Pile Of Corpses [Cold Spring, 2011]
Out 10th, 2011 | Por Nuno Afonso
Tomando o ano de assalto, os Skullflower regressam em elevado modo de beatificação, substancialmente além de qualquer expectativa, mesmo para quem tenha vindo a acompanhar a sua obra. Sensivelmente três décadas de laboro exploratório conferem a Matt Bower uma aura de quase-lenda, reforçada pelas inúmeras participações/criações paralelas que incluem referências como Whitehouse, Vibracathedral Orchestra ou Sunroof!. Se até à data Orange Canyon Mind seria um justo ex-libris dos Skullflower, o mais recente Fucked On A Pile Of Corpses assume-se no imediato como um dos raros e verdadeiramente cruciais álbuns destes últimos meses. Imagética de devastação, física mas também emocional, em ponto de convergência de dois mundos: noise e metal.
Será legítimo admitir que a violência é aqui um elemento-chave, consciente ou inconscientemente; é dela que emana esta abordagem mais extremista da banda, e é ela que reveste uma melancolia latente. Fucked On A Pile… nutre um certo requinte de maldade doentia pela evocação de ideias que se inicia ainda antes da escuta, pelo próprio título. Mas mais do que a provocação por si, é a criação de uma atmosfera que importa. Pela descida ao submundo, vaporosa e radioactiva da abertura de Hanged Man’s Seed até ao desaguar meio-épico de Viper’s Fang, o profano e o celestial parecem interagir de forma lasciva. Um feito absoluto e ímpar, somente ao alcance de quem conhece ambas vias e não procura concessões.
A aproximação ao espectro doom-metal surge com Anubis Station, um escape gutural que apela aos Sunn O))) e Earth pela criação de um campo magnético electrizante e infeccioso, em nada perdido do restante despojamento de ruído. Algo que mais tarde, já no fecho, é recuperado no monumental Sleipnir, buraco negro do um álbum que, na verdade, nunca termina.
Fucked On A Pile Of Corpses é um apaixonante passo em frente para a banda que o assina mas também para um género e/ou sub-géneros que os possam acolher como seus. O valor real de um álbum que transmite tanta energia bruta, tanta emoção derretida e uma série de outras coisas dificilmente traduzidas para as palavras (e que quando assim feitas, poderão soar idiotas) é – para já – incalculável. Música que não cura, mas que exorciza.
Nuno Afonso




