| Discos | V.A: Luso Pop

Dez 17th, 2009 | Por Nuno Afonso

luso_popAproveitando a época natalícia, andava eu a satisfazer o meu espírito capitalista numa unidade comercial que não vou dizer que era o Feira Nova para não fazer publicidade gratuita, quando num daqueles cestos cheios de discos em promoção um me chamou a atenção. Era o Chinese Democracy, dos Guns’n’Roses, o álbum que, depois de quinze anos à espera de ver a luz do dia, apenas precisou de poucos meses para saltar dos escaparates para o molho da liquidação total dos discos em que ninguém pega. No entanto, não é sobre ele que eu quero aqui escrever (até porque já falei sobre isso em tempos, basta procurarem aí na agenda ao lado, caso estejam interessados), mas antes sobre o álbum que estava por debaixo desse.

Chama-se Luso Pop e é uma colectânea manhosa de música portuguesa manhosa. No entanto, o que me chamou a atenção foi a capa do disco, que será, quiçá, uma das melhores capas de sempre da história dos discos. Como podem ver pela imagem aí em cima, é uma reprodução da famosa capa dos Velvet Underground feita pelo Andy Warhol, com a mesma fonte e tudo, mas em vez de uma banana tem um… bacalhau. É genial! E depois de quinze minutos a rir, consegui recompor-me e comprar o disco.

No entanto, chegado a casa, pus-me a olhar com mais atenção para Luso Pop e, afinal, não é uma compilação assim tão manhosa quanto isso. Antes pelo contrário. Lançada em 2008, Luso Pop compila vários êxitos dos anos 80 que ilustram a passagem daquilo que foi o boom do novo rock português para a modernidade da pop nacional. A novidade? Fazê-lo com temas que habitualmente não estamos acostumados a ver neste género de compilações, incluindo algumas raridades, como a versão do Da Da Da, do Herman José, uma das suas músicas mais injustamente esquecidas, ou temas como Salva-Vidas dos Clube Naval, ou o lado B do Foram Cardos, Foram Prosas, da Manuela Moura Guedes, Flor Sonhada.

Pelo texto que vem no livrete, assinado por Rodrigo Affreixo, percebe-se que a intenção do disco era ainda emular a discussão entre Miguel Esteves Cardoso e António Duarte e Viriato Teles que, nos anos 80, se degladiavam no mítico “Se7e” sobre o que era rock e pop nacional. Esta é uma daquelas discussões que não levam a lado nenhum. Bem mais interessante acaba por ser o elogio feito a três personalidades incontornáveis da novo rock português e que raramente são mencionados: os compositores António Pinho e Nuno Rodrigues, da Banda do Casaco (o Lennon e o McCartney do novo rock português), responsáveis por coisas como Ali-Babá, das Doce, ou Bombom, da Concha, ou o letrista Miguel Esteves Cardoso, autor do já mencionado tema da Manuela Moura Guedes ou do também presente Baile Final, de Anamar.

Dispensáveis apenas duas canções: o kitsch Como o Macaco Gosta de Banana, de José Cid, que por cada tema bom terá sempre uma alarvidade destas a persegui-lo; e Só Falei Para Dizer que te Amo, versão do Marco Paulo de… I Just Called To Say I Love You de Stevie Wonder. No entanto, até estas duas pérolas acabam por valer pela curiosidade mórbida de um alinhamento tão inesperadamente refrescante, que tem Povo Que Lavas no Rio em vez dos já batidos temas do Variações, ou Senhor Extraterrestre, o tema que Carlos Paião (também presente com o óbvio Playback) escreveu para a Amália. Luso Pop é uma daquelas coisas escondidas que não se percebe… E no Feira Nova havia uma catrefada deles ao preço da uva mijona.

Pedro Soares

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  1. O que é engraçado é que ouvi falar do disco e vi a capa há muitos meses (pouco depois de ser editado) e não tinha reparado na ligação com os discos da banana. Como gosto do tema do José Cid apenas dispenso a versão do Stevie Wonder. Aproveito para dizer que gosto de algumas canções do Marco Paulo: “Ninguém Ninguém”, “Canção Proibida”, …. Realmente esta edição inclui várias perólas por vezes esquecidas e outras que nem tiveram qualquer impacto: o tema dos Clube Naval também é lado B, o tema da Né Ladeiras não foi nenhum dos temas divulgados, etc Realce também para a inclusão de várias pérolas da dupla António Pinho/Nuno Rodrigues nos meandros da música pop (Doce, Concha e Gabriela Schaaf)

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