| Do Fundo do Baú | Sonny Sharrock

Jan 18th, 2010 | Por Nuno Afonso

Há discos maiores que a vida. Obras que marcam quem com elas se cruzam e vão passando entre gerações até chegarem a esse epíteto, hoje em dia tão vulgar e lugar-comum, de obra-prima. Black Woman é maior que a vida. Em 1969 o guitarrista de jazz Sonny Sharrock lançou aquele que é seguramente um marco incontornável no free jazz. Com a ajuda da sua mulher Linda (na voz), Black Woman é capaz de pôr o mundo de pernas para o ar. Consegui-o fazer há quarenta anos atrás e voltará a fazê-lo seja em que altura for. Sharrock, cuja primeira vez que escutou John Coltrane nunca mais foi o mesmo, tinha o sonho de tocar saxofone. Algo que nunca chegou a fazer devido aos seus problemas de asma. Mas como nestas coisas a vontade é mais forte que tudo o resto, o músico canalizou a sua genialidade e trabalho para a guitarra, procurando tocá-la da forma como se imaginaria a tocar saxofone. Nasceu assim um dos maiores guitarrista free jazz de todos os tempos, tendo colaborado com iluminárias como Peter Brotzman, Pharoah Sanders, John Zorn, Cecil Taylor, entre outros. Este enquadramento – chato e factual, admita-se – ajuda-nos a perceber a determinação de um homem que ultrapassou as suas iniciais condicionantes e também a inevitabilidade de uma genialidade avassaladora. Black Woman espelha tudo isso e muito mais.

O tema homónimo que abre o álbum encarrega-se imediatamente de evocar uma espiritualidade que acompanha todo o disco. A voz de Linda mais que mera voz humana, reprodutora de palavras e sons, está aqui mais próxima  de um instrumento musical vocal. Na verdade, o instrumento musical mais libertador que alguma vez possamos imaginar. A guitarra de Sonny e a voz de Linda, envoltas em percussão e sinos, são aqui uma  autêntica demonstração força orgânica e presságio de que daqui a diante não há fronteiras para o jazz. Todavia se este cenário de quase-caos e evocação xamânica faria prever  um seguimento semelhante, eis que Sharrock nos engana; Peanut tem uma entrada divinal, em estado Céu-todo-Perfeito. A imprevisilidade é de resto um traço bem vincado na personalidade do músico que ainda no mesmo tema nos volta a trocar as voltas e envereda num turbilhão de  cacofonia. Uma guitarra que parece ganhar vida própria e convocar demónios enquanto Linda pulveriza magia onde pode. A pouco e pouco, entramos numa espiral de psicadelismo sem fim. Black Woman vive da dualidade entre o caos e a harmonia e se dúvidas existam, o tema Bialero é disso exemplo. Bizarro, incerto e inquietante. Nele concentra-se todo charme e eloquência de um quase recital embora sob uma atmosfera de certa tensão. Tensão essa que desaparece por completo quando começamos a escutar os acordes de Blind Willie. Uma peça em guitarra acústica assente numa estética minimalista e  semelhante ao fingerpicking de John Fahey ou Robbie Basho. De certeza de que ainda falamos aqui de jazz, tal como a maioria o conhece? Seguramente não. Tal como não será bem amado por parte dos mais puristas do género. Afinal de contas, este é um trabalho que consegue ser tão simplesmente o seguinte: amor ou ódio. Caberá a cada um fazer a sua escolha mas uma coisa é certa: ninguém terá verdadeiramente uma opinião neutra. O último tema do álbum, Portrait Of Linda in Three Colors, All Black transporta-nos para um patamar acima de tudo o que atrás se descreve. Um tema de oito minutos que nos envolve e nos faz entranhar toda a cultura e energia de  África. Uma doçura em jeito de dança que abre caminho para a entrada arrebatadora de um trompete endiabrado e festivo. Puro clímax que descortina, no meio deste cenário cavalgante, a arte de Linda levar os limites da voz humana a locais longínquos. Entre aquilo a que muitos poderão chamar de esquizofrenia ou puro grito, eu preferia chamar de expressão. Pura e dura, de cor, sangue e carne. Nada aqui é insípido ou teatralizado, bem pelo contrário. É  a mais pura e expressiva celebração de Música.

Em suma, Black Woman é uma força na natureza. Se humana ou sobre-humana, isso já será outra história.

Nuno Afonso

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