| Do Fundo do Baú | The Screamers
Fev 22nd, 2010 | Por Nuno Afonso
Olhando para o mapa histórico do punk – como movimento e género – há logo a destacar duas cidades-epicentro: Londres e Nova Iorque. Entre elas, as inevitáveis diferenças e iluminárias do género. Na primeira os Pistols, The Clash e Buzzcocks, na segunda os Ramones, Talking Heads ou Patti Smith. Alguns nomes de ouro que ainda hoje são referências máximas. Mas a cidade californiana de Los Angeles sempre teve igualmente um circuito punk muito activo, principalmente naqueles que foram os primeiros passos para géneros mais extremos como o hardcore ou grindcore. Ainda antes dos Dead Kennedys ou dos Devo (que mais tarde admitiram a influência incontornável da banda que se segue), os The Screamers já andavam pelos lugares mal afamados da cidade a surpreender todos aqueles que assistiam às suas actuações incendiárias. Estávamos em finais dos anos 70 e nasceria aqui um sub-género chamado synth-punk.
Pegando na sujidade habitual do punk e aplicando-a aos sintetizadores, os The Screamers mantiveram-se no activo por cerca de seis sendo que nunca houve um disco oficial da banda mas sim uma colecção de demos entre 1977 e 1978 e hoje em dia um fabuloso documento rock. Este é também um daqueles casos em que o mito esteve sempre presente. Na edição de Maio do ano passado, da revista Wire, Mark Mothersbaugh (fundador dos Devo), referia-se aos The Screamers como “a banda mais importante nessa era” (circa 1979) em que os concertos eram verdadeiras performances demonstrativas da energia mais rude e contagiante de que havia memória. Para além da entrega física, existia também uma apresentação muito própria da banda, esteticamente falando.
122 Hours Of Fear é um dos temas-símbolos da paranóia e anti-governo que caracterizava a banda contudo, se quisermos conhecer a fundo toda a esquizofrenia e visceralidade dos The Screamers, é precisamente com Punish Or Be Damned. Uma espécie de hino e semente para o synth-punk que anos mais tarde foi desenvolvido por outras bandas da zona como Le Shok ou FM Bats. Demos 1977-78 para além de ser actualmente o único item dos The Screamers é igualmente um puro exemplo de como o bom velho punk nunca perde as suas propriedades. Continua a soar desafiante, perturbador em alguns casos e sempre arrebatador. Ainda hoje, este consegue ser um dos discos mais impressionantes do género.
Nuno Afonso




