| Entrevista | Former Ghosts
Jul 5th, 2010 | Por Nuno Afonso
É actualmente um dos criadores da electro pop mais intensa, bela e perturbante que por aí se pode escutar. O ano passado, e sob o pseudónimo de Former Ghosts, deu-nos a conhecer uma nova fase da sua vida após o projecto This Song Is A Mess But So Am I. Numa altura especialmente agitada da sua carreira, Freddy Ruppert tirou uns minutos para o Mescla Sonora e falou-nos sobre o passado, presente e futuro de Former Ghosts. No final ficámos a saber que o novo disco já se encontra pronto e já há ideias para um terceiro…
Imagino que estes tenham sido dias agitados para ti. Recentemente estiveste em digressão pela Europa, como correu?
Têm sido dias agitados de facto, com o lançamento do novo disco e cada vez mais concertos. A digressão europeia foi realmente incrível. As pessoas foram extremamente atenciosas, os concertos foram óptimos e foi a primeira vez que pude estar nessas cidades portanto foi uma experiência fantástica.
Sentiste alguma diferença assinalável entre o público norte-americano e o público europeu?
Sim, julgo que existe uma grande diferença entre ambos. Algo que notei é que consigo ser bastante aberto em relação à música electrónica e tenho acompanhado de perto o crescimento deste cenário musical. Contudo, penso que o público indie norte-americano ainda continua a querer assistir a concertos com instrumentos tocados ao vivo ao passo que estou habituado a actuar como músico de lapstop através de um sintetizador e alguma percussão de apoio. Apenas lanço a música no laptop e toco teclados e canto. E parece-me que esta abordagem musical ao vivo consegue ser mais aceite na Europa.
Apesar de seres o principal criador nos Former Ghost, Jamie [Stewart, dos Xiu Xiu] and Nika [Zola Jesus] – que colaboraram em “Fleurs” – nem sempre estão disponíveis para te acompanhar em digressão, devido aos seus próprios projectos. É difícil interpretar os temas que gravaste em estúdio e não contar com a presença dessas pessoas?
Por vezes consegue ser complicado não ter o Jamie ou a Nika em palco comigo. Há alturas em que me sinto estranho por estar sozinho em palco. Mas também acho que às vezes a ideia das pessoas em redor de Former Ghosts são diferentes em relação ao que o projecto realmente é. Ou seja, estes colaboradores, todos eles têm bandas e nem sempre estão livres para me acompanharem nas digressões, nem os Former Ghosts são uma prioridade para eles. Portanto quando os Former Ghosts tocam ao vivo é algo adaptável, que se apresenta por si mesmo e que pode adquirir vários formatos. Parece que finalmente as pessoas começam a perceber isso.
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Antes de dares vida aos Former Ghosts tinhas o projecto This Song Is A Mess But So Am I. O que mudou, de um projecto para o outro?
This Song Is A Mess But So Am foi basicamente uma forma de lidar com o cancro mortal da minha mãe. A dada altura, atingi um ponto em que já não queria lidar tão intensamente com a situação, então decidi pôr esse projecto de parte.
Se pudesses escolher uma canção favorita qual escolherias?
Canção favorita? De minha autoria ou de outros artistas? A minha favorita de todos os tempos é I Know It´s Over dos The Smiths. De minha autoria, não sei bem, nunca pensei nisso, não gosto especialmente de escutar as minhas próprias canções (risos).
Sei que tens um blog pessoal, o qual procuras actualizar com regularidade. É importante para ti manter esse grau de proximidade com os teus fans?
Acho que é bastante importante ter esse tipo de proximidade com as pessoas. Não gosto da ideia de uma barreira entre o músico e o ouvinte. É algo verdadeiramente essencial para mim. Adoro conhecer novas pessoas e travar novas amizades. Gosto simplesmente de pessoas e como tal, o contacto com elas é-me crucial. E penso que com o desenvolvimento da internet – actualmente com o Facebook, blogs, Twitter, etc – é completamente possível deitar essas barreiras abaixo. É isso que procuro.
O vídeo de Hold On é bem intenso e até poderá parecer chocante, de certo modo, embora se sinta também uma alegria vibrante. Conta-nos um pouco sobre isso, qual o conceito do vídeo e se concordas com essa presença dessa suposta alegria.
O conceito por detrás desse vídeo surgiu quase que por acidente. Pode parecer tolo admiti-lo mas na verdade foi uma noite em que estava bastante chateado e então o meu amigo Amir apareceu em casa para bebermos uns copos e ele simplesmente sugeriu filmarmos aquele momento para um vídeo. E eu concordei. Então fomos para a Redondo Beach Pier, bebemos por lá enquanto filmávamos e depois regressámos ao meu apartamento para acabarmos a restante bebida. Fiquei bastante embriagado e filmei as partes em que cantava. Continuei cada vez mais bêbado e acabei por vomitar… Penso que talvez aquilo que te pareça alegria acaba por vir desta forma quase niilista de beber para esquecer (e não o digo de uma perspectiva alcóolica, ou seja, é mais no sentido de te sentires tão baixo que tens aquela necessidade de te encontrares com os amigos e beber noite dentro) como uma tentativa de te esqueceres ou até ultrapassares algo ou então, uma mera distracção a alguma coisa ou um castigo a ti mesmo . Por outro lado, também estava acompanhado por um dos meus melhores amigos enquanto filmava e bebia por isso existem definitivamente momentos de alegria. No entanto, foi uma uma experiência igualmente forte e estúpida.

Fleurs parece ter sido, até ao momento, o teu trabalho mais intenso, não apenas de uma perspectiva musical mas especialmente na escrita das canções. Consideras esse processo uma parte difícil?
O disco nasceu numa complicada mas provavelmente também mais bela fase da minha vida. O processo de escrita não é fácil mas isso acaba por surgir de forma natural até porque todas as canções de Fleurs foram dirigidas a uma pessoa específica e escritas numa altura em que estava desesperado por terminá-las a tempo para que essa pessoa pudesse escutá-las antes ainda de qualquer ideia delas num lançamento discográfico. Apenas escrevi e gravei estes temas o mais depressa possível e colocá-los então no meu blog.
Encontras-te a preparar novo material, certo?
O próximo disco já está terminado e confesso que foi bem mais difícil de o compôr. Surgiu de uma ideia completamente diferente, com excepção de três dessas canções, e nenhuma delas foi escrita para um pessoa específica. Em vez disso, elas lidam mais comigo mesmo e com alguns aspectos relacionados com o ciúme e a obsessão e não ser capaz de deixar algo, não sabendo como amar num todo. Julgo que este seja um álbum bastante mais difícil, mais sombrio e, salvaguardando três temas, não é de todo um disco romântico. Aborda mais a exaustão, o facto de perder a própria ideia de amor e não saber como voltar atrás, não sendo capaz de aceitar as coisas como são.
Existe alguém que gostasses de convidar para o próximo disco de Former Ghosts?
Bom, visto que o segundo álbum já está pronto e conta com a colaboração do Jamie Stewart [Xiu Xiu], Nika Roza Danilova [Zola Jesus] e Yasmine Kittles [Tearist], este está quase a ponto de ser lançado. Para um terceiro disco? Gostaría de convidar Terius Nash [The Dream].
Nuno Afonso




