O adeus a António Sérgio

Nov 2nd, 2009 | Por Nuno Afonso

Estamos de luto. Um dos maiores radialistas portugueses e divulgador de nova música deixou-nos na passada madrugada de Sábado. António Sérgio, mais que um nome ou uma voz, era um símbolo de uma forma de estar na rádio. Quatro décadas dedicadas à comunicação e à música, ele foi para muitos o John Peel português. Muitos foram os seus pousios. Esteve ligado à mítica XFM e a vários programas de sua autoria que ficarão para sempre como a Som da Frente ou Hora do Lobo. Nestes últimos tempos a Radar fora o sua “nova toca”, como o próprio afirmara na estreia do programa Viriato 25.

Falarei daqui para a frente em discurso directo e penso que em nome dos restantes colaboradores deste site e de muitos dos que talvez nos estejam a ler. Falarei em discurso directo pois sinto que perdi um herói da esfera musical que não era músico mas que me deu a conhecer muita música. Numa altura em que o fenómeno da internet não tinha a expressão e acessibilidade de hoje, a rádio era forma de escutar novos sons e novos nomes. Mas também nomes antigos que até então me eram desconhecidos. Neste sentido, A Hora do Lobo foi uma escola. Muitas eram as noites que me mantinha acordado até altas horas para escutar bandas que hoje fazem parte das minhas referências musicais e com as quais tenho crescido. Durante anos mantive-me acordado até às três da manhã, em dias de semana e com aulas no dia seguinte, para escutar em primeira mão as muitas novidades que o António apresentava.  E numa altura em que as cassettes audio ainda faziam parte do nosso dia-a-dia, muitas são também as que ainda guardo com as emissões da Hora do Lobo. Algumas ainda provam o meu primeiro encontro com bandas na altura desconhecidas para mim, bandas como uns tais de Yo La Tengo, Mogwai ou Godspeed You Black Emperor!, para citar algumas.

Mais que comunicador, António Sérgio era um divulgador nato e inconformado. Sempre atento ao que se passava no universo musical mais alternativo, ele era um a voz de uma outra rádio. Fidelizava ouvintes, amantes de música de espírito aberto para outros sons, outros sons que raramente tinham espaço na rádio. A experiência de ouvir rádio ganhava com ele uma outra dimensão. Porque a rádio não estava simplesmente ligada para preencher o silêncio enquanto se fazia qualquer coisa; a rádio estava ligada porque a sede de ouvir e conhecer nova música era forte, muito forte. E não havia sono que esbatesse este desejo quase vampírico de escutar sempre com atenção as suas emissões. Ele sabia seduzir e acompanhar os seus ouvintes, envolvê-los no seu mundo criando uma laço forte e coeso. Lembro-me que em tempos havia um spot publicitário que anunciava “uma rádio amarela num país cinzento”. António seria certamente “um homem amarelo numa rádio cinzenta”. Tínhamos a sensação que nada lhe dava mais prazer que divulgar.  Um humilde e criativo divulgador que mesmo na noite em que foi distinguido como figura da rádio nacional numa gala televisiva, horas depois, abre o seu programa ao som de (I Can´t Get No) Satisfaction, cantada por Cat Power e dedicando-a simplesmente a todos os seus ouvintes. Um momento simbólico  que ficou tatuado na memória. A escolha do tema pode não ter sido inocente e reflectiu na perfeição o seu gosto genuíno de partilha musical, nunca realmente satisfeito, sempre procurando, divulgando e fascinando muitos de nós, do outro lado do estúdio. Apetece perguntar, essa magia da rádio, onde  anda ela nestes dias?

A voz da noite deixa-nos mas nós não o deixamos.

Um sincero obrigado, Mestre.

Biografia

Entrevista na 2

One comment
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  1. Resta dizer que as noites já não serão iguais…..
    Contudo, a seu pedido e da sua família, a sua voz continuará a ouvir-se na Radar.
    :’(

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