| Perdidos em Combate | Black Eyes

Jul 1st, 2009 | Por Nuno Afonso

Sempre que se fala na cidade de Washington é inevitável recordar a importância desta no mundo histórico e político norte-americano. Capital de uma super-potência mundial,  para muitos também é conhecida como epicentro do movimento punk (há quem lhe chame pós-hardcore or whatever) fundado pelos Fugazi via Dischord Records, que deu a conhecer ao mundo um catálogo extenso e absolutamente fascinante de uma série de artistas que a partir da estética e ideologia punk, levaram esse género/movimento/modo de vida a lugares não-comuns. Os Black Eyes estavam-se nas tintas para tudo e para todos. Menos punk e mais noise, esta foi uma banda que deixou mossas muito própria, ainda que fechados numa certa obscuridade que cada vez mais descobre a luz de mais admiradores.

Cough, segundo e último disco dos Black Eyes lançado em 2004, continua sendo uma daquelas obras de aceso culto. Possivelmente o disco mais esquizofénico, inclassificável e demoníaco do catálogo da Dischord. O magnetismo da banda em atrair para si tudo o que não era de convencional, era algo nato. Boredoms, Fugazi, Charles Mingus, Glenn Branca, Jesus Lizard, Ornette Coleman, todas estas referências conviviam em asfixia agoniante e constante no mundo dos Black Eyes. Avant-garde punk? Talvez, mas soa a pouco. Mas para quem os escuta pela primeira vez  – para além da sua forte sonoridade – há algo mais que não passa despercebido: a voz. Dificilmente a banda poderia ter tido melhor vocalista que Daniel Martin-McCormick. A razão é simples: a sua voz (frequentemente desdobrada em berros, guinchos e ginástica vocal não identificada) era digna de uma possessão quase-espiritual que não conhecia limites e que encontrava uma estranha harmonia em toda a desarmonia dos Black Eyes.

Com apenas dois discos longa duração e um EP, rapidamente os Black Eyes atingiram um estatuto no underground norte-americano que hoje em dia, com o apetite que existe em redor do noise rock, começa a emergir cada vez mais. Nunca é tarde para conhecer boa música, já dizia alguém. Contudo, será tarde demais para esperarmos novos trabalhos por parte da banda uma vez que a edição de  Cough ditou o igualmente término dos Black Eyes.

Actualmente, os seus membros dedicam-se a outros projectos como os Sentai, Earthen Sea ou os mais conhecidos  Mi Ami. Este último projecto que conta com a voz de Martin-McCormick e que poderá ser considerado como uma das surpresas de 2009 através do magnífico disco Watersports.

Nuno Afonso

Myspace

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