| Sob Escuta | Arthur Russell
Nov 11th, 2008 | Por Nuno Afonso
Arthur Russell foi e continua a ser um dos ícones de uma Nova Iorque fervilhante de novas ideias, estéticas e musicalidades. Foi, porque era detentor de uma criatividade inabalável e continua a ser pois apesar da sua morte em 1992, o seu trabalho é ainda hoje tido como influência crucial em muita da música disco/electrónica da actualidade. De resto, The World Of Arthur Russell é daqueles discos essenciais a uma qualquer colecção.
2008 é um ano importante para os fans de Arthur Russell. Recentemente foi estreado o documentário sobre a vida e obra do músico e ainda temos o prazer de conhecer um disco “perdido” de Russell, agora a ver a luz do dia pelas mãos da editora Audika (que se tem centrado nos últimos anos na recuperação do seu trabalho). Todavia, como se tudo isto não bastasse, Love Is Overtaking Me é mais do que mais um disco perdido de Russell; ele reflecte uma outra faceta do músico que até então era totalmente desconhecida. E ouvirmos (tantos anos depois da sua despedida) um disco nestes moldes é algo comovente e surpreendente.
Love Is Overtaking Me mostra assim um Arthur Russell desprovido de sintetizadores, teclados e visões groove vanguardistas. Como um título indica, um disco mais intimista, mais despido. Sabemos que Russell era um fantástico compositor e procurava sempre novos caminhos a trilhar mas quando o ouvimos a cantar de forma tão natural, estas vinte e uma canções é impossível não nos fascinar. Porque aqui é folk do que se trata. Pura e bela. Será até legítimo pensarmos num Nick Drake ou num Bob Dylan. O conhecido violoncelo de Russell dá lugar à guitarra acústica e a sua voz conta-nos estórias de amores e desamores, encontros e desencontros. e os títulos não enganam: Close My Eyes ou Oh Fernanda Why. É Russell, nos meandros da música mais tradicional, longe da estética maquinal e vanguardista que o caracterizou. Penso que se poderá dizer que nunca a sua sensibilidade foi tão notória e tão directa. Não é um disco que irá marcar a folk; longe disso, não existem aqui propriamente ideias novas nem era essa a sua intenção. Contudo, é certamente um disco que marca o seu trabalho.
No fundo, Arthur Russell como nunca o imaginamos ouvir. Uma belíssima surpresa.
Rita Andrade




