| Sob Escuta | Jailbreak
Out 14th, 2010 | Por Nuno Afonso
Evocando uma América de pura liberdade sonora e transversalidade musical, Chris Corsano segue um trilho muito próprio que o torna num dos maiores ícones do improviso actual. Com Michael Flower tem criado momentos únicos de raggas eléctricos numa posição que os coloca bem além dos meandros do noise. Com Heather Leigh Murray, e sob a designação de Jailbreak, pegam a força bruta do rock mais indomável pelos cornos e arrastam-na para um tratamento de choque. Em The Rocker, o duo demonstra como se percorre uma linha temporal, situada nas últimas quatro décadas de criação musical, onde o jazz, o blues e o rock perdem as suas fronteiras e ganham outros corpos.
Existe qualquer coisa de muito poderoso em The Rocker. Com apenas duas longas faixas cria-se um campo magnético que atrai pela fúria da entrega e que cativa pela sua imprevisibilidade. A voz de Leigh Murray é algo fantasmagórica e ainda que fugaz e incerta, rompe a complexa malha instrumental (e neste sentido seria justo referir os primeiros discos dos Magik Markers). Por outro lado, nunca é demais evidenciar a técnica de Corsano e o fascínio com que se entrega. Insiste até à insanidade e descortina momentos de puro transe em direcção ao infinito. Não é exagero, está tudo lá, basta escutar.
Embora possa por ventura exigir um ouvido experimentado, os Jailbreak praticam um ruído que é sempre orgânico. Visceral e latejante, sem quaisquer manipulações electrónicas ou fazendo da confrontação do ruído uma posição per se, a multi-dimensionalidade da música acaba por ser um dos muitos pontos de chegada possíveis numa viagem radical como esta.
Dentro do género, este será com certeza um dos grandes discos do ano. Infelizmente trata-se uma edição limitada a 700 cópias, tornando-a um prazer raro. Confrontante e caótico, provavelmente capaz de desabar trovoadas até na mais pacata cabeça. Uma experiência estonteante, como poucas.
Nuno Afonso
Excerto do concerto em Glasgow, 2009.




