| Sob Escuta | Matana Roberts

Jun 14th, 2011 | Por Nuno Afonso

Longe de um lugar de novidade, no que diz respeito a nome e carreira, Matana Roberts tem vindo a consolidar um percurso fascinante no jazz mais transgressor. Ligada à Association for the Advancement of Creative Musicians, é a partir de um trabalho multidisciplinar, baseado na experimentação, que edifica a sua expressão musical. Incendiária na forma e inquiridora no conteúdo, COIN COIN: Chapter One: Gens de Coloeur Libres é o mais recente álbum que acentua estas e outras características. A ideia da liberdade dos povos, remetida pelo próprio título do disco, faz-se aqui por sons e palavras, pelo saxofone e pela voz, pelo siêncio e pelo ruído. Cheira a jazz contemporâneo, é certo, mas a tradição afro-americana, do blues e dos spirituals, adivinha-se tão presente quanto tudo o resto.

Gravado ao vivo no mítico Hotel2Tango, outrora quartel-general dos Godspeed You Black Emperor (com quem a própria colaborou), COIN COIN conserva uma palete de variadas referências e abordagens que se traduz num esparso mosaico de estados sonoros. Neste sentido, a explosão instrumental das suas faixas encontram ponto de convergência à catarse vocal de Roberts, abrindo caminho a uma continuidade da herança de Albert Ayler, John Coltrane ou Charles Mingus, mas também de Gil-Scott Heron ou The Last Poets; é a componente da palavra falada, uma exorcização quase-poética de um pensamento em redor de  temáticas de opressão e de injustiça. Nada mais flagrante em Libation For Mr. Brown: bid em, um dos possíveis momentos-chave, e um impressionante, e sempre crescente, exercício gospel de quinze minutos em clara alusão à escravatura no século XX. Percebemos pois que os demónios de 1911 podem ser – e são – os demónios de 2011.

COIN COIN sublinha, acima de tudo, a qualidade de composição e de interpretação de Matana Roberts. Não sendo excessivamente complexa, a sua obra incute interpretações e imprime histórias. Desviando-se elegantemente do alvo cinematográfico que alguns lhe poderão posicionar, resta, no fundo, pouco espaço às imagens como a quem assiste a um mero filme. Como objecto intrigante que é, descobre-se a seu tempo. Da teatralidade existente, ao escape eminente, esta é música de pouca espinha e muita carne. Para já, um dos pontos altos deste ano.

Nuno Afonso

Myspace

Matana Roberts – Mississippi Moonchile from Constellation Records on Vimeo.

One comment
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  1. [...] as afilhadas dos Shabazz Palaces (dia 17) e ainda Matana Roberts (a 28), centro de atenções por aqui. Convém consultar o site da ZDBmusique para aceder a todos os pormenores sobre estes e outros [...]

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