| AO VIVO | The Datsuns @ Santiago Alquimista
Mar 6th, 2009 | Por Nuno AfonsoToda a gente se lembra, certamente, no início deste século, do “renascimento” do rock’n'roll. Renascimento entre aspas, claro, porque ao contrário do que nos quiseram fazer crer, ele nunca morreu (como é que seria possível?). O que aconteceu é que o Fred Durst e os amigos andaram a maltratá-lo durante vários anos (o final da década de 90 foi tão mau…). Assim, Is This It, o álbum de estreia dos Strokes, marcou o ressurgimento do interesse da crítica internacional pelo rock e, de repente, tudo o que eram bandas de guitarras passaram a ter direito a airplay.
De repente, tudo o que se assemelhava minimanente a rock’n'roll passou a ser visto como the next big thing. Bandas que, em condições normais, nunca iriam sair da gaveta do anonimato, passaram a ter garantidos os seus 15 minutos de fama, muitas vezes reduzidos a um one-hit wonder. Hoje em dia, quem se lembra dos Jet, além do single pilhado ao Iggy Pop de Are you gonna be my girl, por exemplo? E quem é que ainda tem paciência para os novos discos dos Von Blondies, dos Vines ou dos Franz Ferdinand, todos polidinhos e arrumadinhos, apelidos que nada têm a ver com o rock’n'roll.
Estes dois longos parágrafos servem apenas para introduzir os Datsuns, banda neo-zelandesa, que surgiu a reboque dessa nova vaga e que acabou por conseguir manter-se à tona depois da rebentação se ter espraiado na praia, com mais ou menos facilidade. É certo que nenhum dos três álbuns seguintes teve o brilhantismo do debutante homónimo (Smoke and mirrors é particularmente fraquinho), mas os Datsuns têm algo mais que os fez destacar logo na altura.
A banda apresentou-se no Santiago Alquimista iguaisinhos ao que eu me lembrava deles quando se estrearam em Portugal em Paredes de Coura: cabelos compridos, calças justas e muita pinta cool, como que acabados de sair de um DeLorean acabado de chegar directamente dos anos 70. Obviamente, o que esperávamos ouvir era o tipo de música condizente com aquele cenário: hard-rock, guitarradas, solos, adrenalina, testosterona e refrões orelhudos.
Obviamente que, por esse lado, os Datsuns não defraudaram. A banda continua fiél às origens, ao hard-rock dos AC/DC e até dos Led Zeppelin. Mas o que é certo é que os últimos discos os têm aproximado mais de um hard-rock mais melódico e os Cheap Trick, influência que nunca negaram, estão cada vez mais presentes naqueles refrões em uníssono ou nos solos de guitarra que se aproximam perigosamente do abismo, onde os esperam um fosso de azeite a ferver. Por isso, para quem esperava o rawk’n'roll mais sujo e distorcido da primeira fase dos Datsuns, a primeira metade do concerto foi aborrecida, balofa e até monocórdica, com excepção de Sittin’ pretty logo ao segundo tema (o que não coloca em causa o empenho da banda).
Foi à medida que o concerto se foi aproximando do fim que foi ganhando interesse, tornando-se mais sujo e mais urgente. A banda ganhava eletricidade e esta trespassava para o headbanging do público, que acabou por accionar a ignição na sequência final. Depois da jam que parecia nunca mais acabar de Fink for the man e do psicadélico Eye of the needle, os Datsuns irromperam com o novo Your bones (de guitarra galopante viciante) e os clássico Motherfucker from hell e Harmonic Generator, como que em em modo cartão de saída brutal.
Mas ainda faltava o encore. E aí sim, o barril de rock’n'roll explodiu, devido à mistura explosiva da equação público bêbado+grandes temas. Depois de Ready set go, com Matt Osment fora da bateria, Lady e In love, novamente do álbum debutante, acenderam o rastilho: de repente, começou a surgir nas primeiras filas público a invadir o palco aos trambolhões ou a nado(!), acompanhando tudo isto com headbangings furiosos, air-guitars virtuosas e um mini-mosh pit. A festa rock’n'roll contagiou a banda depois de alguma hesitação inicial e o guitarrista Christian Livingstone passou a participar no mosh ao público e Dolf de Borst libertou-se da rigidez do baixo e abraçou a festa. Nisto tudo, o pobre do roadie não sabia para onde se virar, retirando gente do palco, ligando monitores que se desliagavam e soltando-se das garras do público que o puxavam para o mosh-pit.
No fim, toda a gente se reuniu no palco para autógrafos e fotografias com a banda. Quando o rock’n'roll é assim, qualquer noite é uma festa.
Pedro Soares




